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Correio da Manhã

Opinião
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16 de Julho de 2011 às 00:30

Por muito piedosas intenções que anuncie, arrisca-se sempre a encarnar a personagem do detestável xerife de Nottingham. O novo titular português da pasta deu a cara, nesta semana, pelo imposto extraordinário, que vai retirar a muita gente o equivalente a metade do subsídio de Natal. Com o seu ar imperturbavelmente tecnocrático, explicou os fundamentos da decisão governamental. Não precisou de se esforçar muito, uma vez que o País tem noção do buraco onde anda metido e que, segundo o próprio primeiro-ministro, perante a irritação natural do PS, assume dimensões "colossais". Nada do que disse aliviou a tristeza e as preocupações, neste ambiente de resignação que já se apoderou das pessoas. Há quase instalada uma lógica determinista que assimila a inevitabilidade das coisas.

Esse estado de espírito, porém, não deixa de ter dificuldade em compreender a razão por que os esforços para endireitar as contas públicas incidem, sobretudo, sobre quem vive dos rendimentos do seu trabalho. A tolerância mostrada em relação a outro tipo de proveitos, nomeadamente os que resultam de operações de natureza especulativa, é de sustentabilidade duvidosa e surge acompanhada de sentimentos de injustiça que as circunstâncias legitimam.

A situação precária do sistema bancário e a necessidade de atrair e fixar capitais, em especial numa altura em que o Estado, nas privatizações que quer empreender, se prepara para alienar muitos anéis, são argumentos de peso mas não disfarçam o desequilíbrio na distribuição da austeridade. É preciso distinguir o que cria riqueza para Portugal do que é nefasto, por só fazer ainda mais gordo quem já se tornara volumoso por pura especulação. Há que arranjar maneira de redistribuir o que nada acrescenta ao desenvolvimento e à competitividade. Torna-se importante que não passe, de novo, a ideia de que o justo paga pelo pecador.

O contribuinte há muito que vem sendo martirizado por sistemáticos assaltos do Fisco. É importante que o ministro das Finanças, Vítor Gaspar, não exagere no papel e não se engane nas contas. Já muita gente errou, demasiado. Muito do que aconteceu até agora é fruto da educação que se recebeu e do sistema de ensino que temos. Um país em que os chumbos a Matemática são mato arrisca-se a uma existência de sobressaltos. Os governos têm culpas no cartório, mas também os professores, os pais e as famílias. A flexibilização da exigência e o facilitismo deixam marcas para a vida.

SOLTAS

OS NÚMEROS BARALHAM

A Matemática pesa chumbo no 9º ano: mais de 60 por cento de negativas. Este não parece ser, de facto, um país de boas contas. Isabel Alçada juntou-se ao leque de ministros mal-sucedidos. Que conseguirá o novo ministro da Educação, Nuno Crato?

TV EM MOVIMENTO

Houve sinais, nesta semana, de que a Televisão, em Portugal, vai mesmo mudar: a) Vítor Gaspar confirma a ida da RTP para o mercado; b) A TVI ficou ainda mais Prisa com a nomeação de uma espanhola para chefe. E a SIC? A dúvida mora agora em Carnaxide...

A ARTE DA PALAVRA

Mal se começa a ler o livro ‘The Finkler Question’, convive-se com os fragmentos de que são feitas as várias cambiantes da vida. A arte de usar a palavra, na escrita, é privilégio de eleitos. Howard Jacobson é de outro universo. Compreende-se por que ganha tantos prémios. 

NOTAS (Escala de 0 a 20)

15 - RADAMEL FALCÃO

Renovou com o Futebol Clube do Porto e aceitou aumentar a cláusula de rescisão para 45 milhões de euros. A jóia da coroa brilha ainda mais.

12 - ANTÓNIO JOSÉ SEGURO

Acentua-se a probabilidade de ser eleito líder do PS. O discurso para consumo interno socialista parece, no entanto, ainda curto para o País.

9 - RUI COSTA

Repete-se o filme: o Benfica volta a deixar fugir possíveis reforços para o Porto. Muito ainda a aprender com Pinto da Costa em matéria negocial.

8 - RICARDO RODRIGUES

Saiu-lhe caro meter no bolso os gravadores de jornalistas que o entrevistavam. O seu julgamento é um ponto a favor da liberdade de imprensa. 

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