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Correio da Manhã

Opinião
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1 de Maio de 2005 às 00:00
Certa vez, o embaixador de uma importante Nação deu-me um exemplo de grande humildade. Desempenhou funções em Portugal durante um longo período. No entanto, com muita modéstia, disse-me que o seu papel era o de repórter ou jornalista: – Relato o que se passa cá em Portugal. Vou estando atento ao que sucede. Por outro lado, transmito o que acontece no meu país e quais as posições por ele adoptadas.
É evidente que havia aqui uma grande dose de simplicidade. Todos sabemos que a missão de um diplomata vai muito para além disso. Depois, o facto de se viver num ambiente diverso torna aliciante a experiência pessoal e profissional.
São muitos os diplomatas que acabam por colocar, em livro, a narrativa da sua passagem por outros mundos. António Pinto da França acaba de fazê-lo numa obra de leitura muito agradável: ‘Angola – O Dia-a-Dia de um Embaixador 1983/1988’.
Realmente, fica-se com a sensação de que os diplomatas desempenham as mais diversas funções. Até a de detective, imagine-se...
Em 1986, o embaixador Pinto da França – mas, na realidade, de Portugal – deparou-se com um problema aborrecido.
A representação portuguesa estava instalada num prédio de grandes dimensões. Os dois andares inferiores serviam para instalar o Consulado Geral. Era um local onde se dirigiam centenas de pessoas, solicitando vistos para se deslocarem a Portugal. No terceiro andar, era a Embaixada. Daí para cima, situavam-se apartamentos de habitação. Uns para alojar diplomatas. Outros ocupados por funcionários contratados localmente. Muitos deles eram pessoas pouco adaptadas às novas realidades. Mostravam algumas dificuldades de convivência. Eram frequentes os episódios de zaragatas.
Deu-se então um fenómeno curioso. Quase diariamente, desapareciam os mais variados objectos. A frequência dos furtos, a hora presumível a que os mesmos ocorriam e os sítios só permitiam duas conclusões. O ladrão era sempre a mesma pessoa. Tratava-se de alguém que ali residia.
O embaixador Pinto da França começou por tentar o caminho da dissuasão. Fazer ver que os furtos eram do seu conhecimento, transmitir a ideia de que não havia dúvidas de que o autor era alguém de lá de dentro e, sobretudo, achincalhá-lo...
O diplomata convocou todo o pessoal. Expôs a situação. Esclareceu que aquilo nem era um caso de ladroagem digna desse nome. O gatuno não passava de um mísero pilha galinhas. A estratégia não resultou.
Continuaram a verificar-se os furtos. Pior: o valor dos bens já não era assim tão insignificante. E foi isto que permitiu apanhar o larápio.
No quinto andar, morava um contínuo, de apelido Cruz e minhoto de nascença. Ele andava a transportar carne para casa, subindo e descendo, à medida que descarregava uma carrinha. Deu, então, pela falta de um belo naco, que valia muito dinheiro.
Talvez devido à pressa, o trapaceiro, que se aproveitou da situação, esqueceu-se de uma coisa fundamental. O alimento não estava congelado. Pingava sangue. Bastou seguir os vestígios.
Os vestígios terminavam exactamente no apartamento de um outro contínuo, que, aliás, tinha sido jardineiro no palácio do governador, antes da independência.
Dois dias depois, o gatuno estava definitivamente de regresso a Portugal.
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