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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Outubro de 2013 às 01:00

Virando 180 graus, o governo quer agora uma RTP expansionista, com canais impossíveis, aumentando a taxa e outros dinheiros públicos. O projecto de contrato de concessão apresentado pelo ministro torna impraticável o que propõe e que deveria ser o único objectivo: bons programas. Tem aspectos positivos, como a desgovernamentalização da RTP e novos mecanismos de fiscalização do seu cumprimento (os actuais são uma fraude política).

Mas o contrato foi feito em Marte. Parece que não há em Portugal nenhum canal e que se começará de novo, como nos anos 50: o Estado paternalista fará tudo sozinho, mesmo tudo, nas suas televisões e rádios: educar, informar e entreter o povo. Maduro defende um Estado e uma RTP com prerrogativas majestáticas, que não têm de atender à realidade nacional e mundial. O contrato pretende uma RTP imperialista que espezinha o mercado actual e impõe o Estado aos cidadãos.

O ministro quer conteúdos muito bons, mas propõe que a RTP tenha pelo menos 12 canais (!) com programas de qualidade, quase 300 horas diárias. É tão impossível que custa a crer que o proponha. Diz que não haverá transferências do orçamento, mas aumenta a nossa transferência directa pela taxa e intui-se que quer sacar dinheiro (nosso) dos ministérios dos Negócios Estrangeiros e da Economia.

Diz que o Estado é que garante a democracia e pluralismo com os seus media: o contrário de décadas de RDP e RTP. Diz que não quer atingir os privados, mas quer dar mais primazia à RTP na TDT. Quer publicidade nas rádios do Estado, com gravíssimas consequências para as rádios privadas.

Nos conteúdos, além das boas intenções de qualidade, aponta para uma TV sistémica, com programas obrigatórios com chefes políticos, deputados e jornalismo "positivo" (como na Rússia ou na Hungria). Fala duma RTP 1 para o "grande público" sem dizer o que isso é ou sequer se existe. Mantém conteúdos de "serviço público" como a publicidade e as televendas. A RTP de Maduro parece saída de Marte, de Moscovo e da França napoleónica. Tendo em conta a realidade RTP, é totalmente impraticável, como se vê hoje no ecrã.

É uma declaração de guerra ao equilíbrio existente entre público e privado. No final, não haverá bons conteúdos, isto é, a boa e única aplicação que interessa dos recursos disponíveis, mas apenas mais encargo para os contribuintes, mais e mais canais, propaganda sistémica, tudo numa visão pseudo-futurista, já ultrapassada pela realidade presente dos media e seus usos. É um projecto megalómano, desajustado da realidade e que não será posto em prática.

Nem o país perguntou, nem o primeiro-ministro respondeu

O modelo de ‘O País Pergunta’ visa "humanizar" os políticos poderosos. Foi assim nos programas francês e espanhol, que também começaram pelo chefe de Estado ou de governo. A aproximação simbólica teve expressão visual: Passos acercou-se de cada cidadão que o questionou. O programa funcionou mal porque muitas perguntas foram pessoais ou localizadas, com introduções inúteis; foi interminável; e Passos respondeu ao lado. Há outras formas de os cidadãos interrogarem, como acontece em diversos programas políticos e de entretém, pelo telefone, email ou SMS. O jornalismo existe para intermediar o poder e os cidadãos. O modelo de ‘O País Pergunta’ é demagógico. Simula proximidade num espectáculo ao serviço dos poderosos.

Tão "inéditos" que eles são

Porque mente a RTP sobre si mesma? Em 2004, a RTP 1 entrevistou o então primeiro-ministro (tinha de ser o primeiro-ministro, claro) no modelo exacto de ‘O País Pergunta’. Agora, disse dezenas de vezes que o programa com Passos era "inédito". Mentir para quê? Há registos e eu mesmo falei aqui daquele programa há um mês. Só pode ser para valorizar os actuais chefes.

RTP Poiares Maduro Passos Coelho
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