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Francisco Moita Flores

RUAS DA AMARGURA

A queda do governo anunciada no início da semana fez decrescer a atenção sobre o andamento do processo Casa Pia, a prova de que as emoções fortes é que dominam a agenda jornalística. Desta vez com razão.

Francisco Moita Flores 4 de Dezembro de 2004 às 00:00
As eleições são desgraçadamente um dos poucos actos cívicos que os portugueses ainda realizam com alguma responsabilidade, submetidos à escravidão da comunicação-espectáculo, voluntariamente submetidos ao silêncio e à indiferença, umas vezes por culpa dos próprios outras por responsabilidade de quem gere o poder ignorando a necessidade de formar uma opinião pública crítica.
Sabemos mais dos meandros do futebol do que dos meandros da política. Conhecemos melhor os protagonistas da ‘Quinta das Celebridades’ do que qualquer ministro ou secretário de Estado.
O processo Casa Pia teve esse condão virtuoso. Trazer a discussão pública sobre a Justiça para o centro das atenções populares. E se é verdade que boa parte dessa discussão tem sido contaminada pela emoção, e a emoção conduz à irracionalidade, afirmando-se partidos pró e contra, denunciando, ou inventando, possíveis aliados ou inimigos, não há dúvidas que aqueles que gerem o poder judiciário foram obrigados a vir a terreiro, a explicar-se, a explicar as leis que nos regem, a informar sobre as condições em que se investiga e se julga.
O que agora se passa com a falta de condições das salas de audiência, onde pela primeira vemos de acordo todos os participantes, prende-se com a criação da cidade judiciária, uma das questões sucessivamente adiada, ignorada, esquecida em tempo de governação e relevada, aplaudida, sublinhada em tempo de campanha eleitoral. O processo Casa Pia teve também essa virtude. Demonstrou materialmente a necessidade de atacar o problema da redenção da Justiça pelo início. Construir-lhe a casa onde pode ter vida própria com dignidade.
Em Março teremos novo governo. Ainda o julgamento do processo Casa Pia irá no início. Até lá vamos ouvir e ler todas as propostas para a reforma da Justiça e não tenho dúvidas que a cidade judiciária será um dos pontos de maior exuberância propagandística. E por mais que gostasse de acreditar, tenho poucas ou nenhumas dúvidas que daqui por um ano, dois, três, a promessa continuará esquecida até à chegada de novas eleições. Porque é assim. É a política que temos. E que se calhar merecemos. Não admira, pois, que ande a Justiça pelas ruas da amargura.
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