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Correio da Manhã

Opinião
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22 de Janeiro de 2008 às 09:00
Depois dos protestos que o convite estava a gerar, o Papa Bento XVI acabou por não se deslocar à Universidade La Sapienza, de Roma. O Papa não deixou de enviar o seu discurso, mas optou por não ir à Universidade. É uma decisão discutível, que não está ao abrigo da infalibilidade papal, mas que, seguramente, só um Papa tomaria. Qualquer dirigente político teria feito o inverso. Na lógica puramente mediática, o protesto, no caso, intolerante, virar-se-ia a favor da vítima.
Uns cartazes provocadores e, quem sabe, algum objecto arremessado, completariam o quadro ideal para tal responsável conquistar os favores da opinião pública e subir nos índices de opinião. Para Bento XVI ir ou não ir à La Sapienza, não era, porém, uma questão de ganhos e perdas na opinião pública. A campanha de um Papa não é eleitoral e o seu desempenho não pode ser compreendido ou avaliado pelos vulgares critérios da ‘palpitologia’ mediática. Acirrar ambientes e entrincheirar posições pode convir a certas correntes de opinião ou contribuir para a notoriedade de certos dirigentes, mas o Papa não precisa de nenhum desses ingredientes.
O festival de protestos, a roçar a irracionalidade, é totalmente estranho a Joseph Ratzinger, habituado, como académico, a ser contestado, mas de forma racional e argumentada. Ao frustrar o folclore montado e previsto para o receber, o Papa acaba por denunciar a nova intolerância, cujos arautos só toleram duas coisas: aquilo que eles próprios defendem ou aquilo que eles mesmos ignoram, mas temem.
O novo fundamentalismo do politicamente correcto não protesta (e ainda bem!) se um dirigente islâmico é convidado a falar numa Universidade; nessa altura, por medo ou ignorância, abstém-se, quando seria útil encarar tais ocasiões como oportunidades para conhecer, debater e contrastar modos de ver e de olhar o Mundo e as pessoas.
Não lhes passa pela cabeça analisar primeiro e debater depois; pouco mais lhes interessa do que o resultado pretendido – acantonar e pôr em respeito certas correntes de pensamento, cristãos incluídos, católicos em particular; utilizam o argumento da sua liberdade para combater a liberdade alheia, sobretudo, daqueles que não pensam pela cartilha do pensamento quase único que pretendem impor; dizem combater a intolerância, mas não toleram a diferença.
Por outro lado, não vale a pena recorrer aos argumentos do passado. A Igreja já reconheceu, em devido tempo, muitas faltas ao longo da História e foi mais longe: ao longo dos séculos não foi a única culpada, mas foi a única a apresentar desculpas.
Acontece que o diálogo cultural que as sociedades europeias devem assegurar e promover precisa de interlocutores. Não se constrói o diálogo quando se procura apagar a presença de interlocutores, cuja expressão é indiscutível e que nem mesmo as universidades (sobretudo, as universidades!) podem afastar do mapa social.
No discurso que enviou, mas que ele próprio não leu, Bento XVI assegura que se a cultura europeia quiser autoconstruir-se, unicamente com base no círculo das suas próprias argumentações e naquilo que de momento a convence e preocupada com a sua laicidade, desagrega-se e fragmenta-se. Admito que nem toda a gente goste do aviso do Papa, mas nesse caso mais vale debatê-lo do que censurá-lo.
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