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Correio da Manhã

Opinião
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1 de Fevereiro de 2006 às 17:00
Na noite das eleições, com mês e meio de antecedência, Jorge Sampaio despediu-se dos cidadãos, a quem agradeceu a simpatia dispensada. Não era, mas podia ter sido um exercício irónico. Se retirarmos as mesuras protocolares e o ocasional oportunismo político, Sampaio jamais recebeu grandes encómios fosse de quem fosse. A Direita desconfiou sempre das respectivas origens, e a Esquerda abominou a sua cautela. Pior: durante dez anos, foi tratado com indiferença pelo ‘povo’ que procurou representar, e com irrisão pelas ‘elites’, a que pertence. Em parte, ele contribuiu para essa resistência, mediante aqueles discursos impenetráveis e aquelas inquietações redundantes. Mas o que todos, ou quase todos, detestaram em Sampaio foi justamente o que ele não podia alterar: a sua natureza de homem comum, sujeito a um tempo vulgar. Ao contrário dos dois senhores que o antecederam no regime, não foram as circunstâncias históricas ou pessoais que elegeram Sampaio, foi apenas o voto. Para muitos, o facto é imperdoável.
Suave, e aparentemente irrelevante, Sampaio nunca foi o Presidente que os portugueses gostariam que fosse. O que abona menos em favor dos portugueses que de Sampaio. Por diversos motivos, na sua maioria lamentáveis, o País aprecia um Chefe de Estado que justifique a designação, capaz de mandar e ralhar. Sampaio, que bem vistas as coisas acabou por esgotar os poderes que a Constituição lhe confere, não mandou nem ralhou. Tomou as decisões que entendeu tomar com o pudor dos tímidos, como se dissesse “façam de conta que não estou aqui”. E nós fizemos.
Mesmo nas duas únicas ocasiões em que o seu arbítrio pesou realmente, isto é, na indigitação e na remoção de Santana Lopes, Sampaio ficou genuinamente condoído perante o dilema. Em ambos os casos, pretendeu acumular paliativos que lhe diminuíssem a responsabilidade: no primeiro, ouviu meia nação antes de optar; no segundo, a meia nação que faltava fez-se ouvir. Em ambos os casos, escolheu a possibilidade menos ‘drástica’ e, por acaso, escolheu mal.
Por acaso. Jorge Sampaio pareceu chegar a Presidente por acaso, e casualmente pareceu desempenhar a função. Sem tumultos e sem dramas, para além dos que o natural desvario pátrio intimamente lhe suscitava. Foi, numa palavra, discreto. E, num mundo perfeito, a sua discrição teria criado as condições para ultrapassarmos a pelintra apetência pela ‘intervenção’ presidencial e adoptarmos de vez, no espírito se não na forma, um parlamentarismo livre de entulho revolucionário. Mas se Sampaio nos deixou uma impressão, ainda que equívoca, do ‘vazio’ presidencial, na despedida os inúmeros críticos voltam a ver uma fraqueza no que constitui o seu principal, e mais feliz, legado. Um legado sem herdeiros, como a recente campanha demonstrou.
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