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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Março de 2005 às 17:00
Santana Lopes regressou à Câmara de Lisboa como se tivesse vergonha. Pela calada. Calado. Prescindindo do brilho e da publicidade mediática que sempre gostou de convocar para todos os actos políticos da sua vida. Fica claro que aquilo de que precisa não é aquilo que gostaria de ter feito. Se mais não houvesse, sabe-se que nunca poderia ignorar as consequências desta opção sobre um amigo leal e político competente, Carmona Rodrigues.
Santana, o homem, pelos conhecimentos acumulados, deve ter as suficientes propostas de trabalho; Santana, o político, luta de forma desesperada para sobreviver aos erros, às derrotas, a uma vida pessoal mal gerida e a uma relação promíscua com a comunicação social que agora lhe cobra com juros. É – por exemplo – um insulto a forma jocosa como algumas pessoas, entre elas jornalistas, glosam o tema da casa que não terá ou das pseudonecessidades financeiras que o afectam.
Nessa corrida desenfreada para alterar o rumo da história, Santana parece estar a caminhar para um erro semelhante ao que pagou a 20 de Fevereiro.
Assim como não devia ter aceite ser primeiro-ministro (Manuela Ferreira Leite no Governo teria sido a solução natural que ainda hoje estaria em funções, ficando ele apenas com a liderança do PSD até final da Legislatura), não deveria ter voltado à Câmara de Lisboa. Ambas as atitudes constituem erros crassos de apreciação – e a mais grave até parece ser a actual. Se a primeira constituía um desafio pessoal quanto à preparação, que perdeu, a segunda é absolutamente disparatada do ponto de vista ético, agravada pela comparação despropositada com (uma outra situação, em tudo diferente, protagonizada por) Jorge Sampaio.
É claro que Santana Lopes, mais uma vez, está a sobrestimar as suas reais capacidades. Refém de vitórias passadas, ele pensa que basta realizar as promessas, sempre adiadas, da campanha autárquica para poder voltar a estar em condições de repetir a proeza: derrotar a Esquerda em Lisboa. Por isso, quer fechar a cratera aberta em Lisboa e acabar o túnel do Marquês; quer inaugurar o Casino, finalmente a tomar forma no Parque das Nações, para onde transitou depois de meia dúzia de localizações falhadas; e quer dar o pontapé de saída nas obras do Parque Mayer, cujo adiamento seria já tema de revista se esta ainda existisse ou conservasse o estilo e o espírito independente dos anos 60 e 70.
Há, no entanto, uma diferença substancial entre coragem política e ambição sem tino: a primeira tem a ver com ideias e convicções, a segunda normalmente sofre de necessidade e não leva em conta a opinião generalizada da comunidade. Alguns políticos tendem a confundir os seus desejos com a vontade dos outros, e Santana Lopes está a constituir-se como um paradigma de um autismo sem limites.
Em Lisboa, na situação política actual, o candidato do PS, qualquer que ele seja (se calhar até Ferro…), vencerá sem dificuldade Santana Lopes. Daqui até Outubro, só um milagre poderia fazer as vezes da longa travessia no deserto de que Santana Lopes parece necessitar para curar a falta de credibilidade política actual. A solução certa, e melhor para o PSD, seria ter ajudado Carmona Rodrigues, não usurpar-lhe o lugar.
Nesta triste história da Câmara de Lisboa, Santana Lopes não é o escorpião incapaz de resistir à sua natureza. Para mal de todos os seus pecados, é a rã indefesa que acredita em finais felizes.
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