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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Santarém, a capital

Avaliar Portugal por uma dúzia de anos de vida política é um acto sacrificial da nossa auto-estima colectiva.

Francisco Moita Flores 7 de Junho de 2009 às 09:00

Tenho a certeza de que o Director Octávio Ribeiro me desculpa o gesto. Hoje, não sou capaz de despir a farpela de presidente da Câmara de Santarém. Não só por ter começado a Feira Nacional da Agricultura mas, sobretudo, por ter sido escolhida pelo senhor Presidente da República para comemorar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Venham ter connosco. Sabemos que os ventos não correm de feição. A crise deprime-nos. Os insucessos amarguram-nos. A generalizada suspeição nas instituições torna-nos desconfiados.

A campanha eleitoral que vivemos deixou-nos ainda mais desiludidos pelo vazio dos sonhos. É verdade que não existem grandes razões para nos celebrarmos. Mas também é verdade que a má-língua ganhou carta de alforria, que o cinismo está na ordem do dia, que a discussão serena das ideias foi substituída pelo insulto de rufias pretensamente sábios. Avaliar Portugal por uma dúzia de anos de vida política é injusto, é demagógico, é um acto sacrificial da nossa auto-estima colectiva. E não faz sentido. Esta semana celebramos Portugal e Camões, a diáspora e a nossa Língua, na cidade de Santarém. Celebramos a memória honrada dos nossos pais, dos nossos avós, dos nossos mestres, dos mestres dos nossos mestres. Celebramos séculos de construção da nossa vida comum. Pejada de derrotas, de sofrimento, mas também de sonhos construídos, de desafios vencedores, da grande festa da vida falada, amada, vivida em português.

Convido-vos para este grande encontro em que nos celebramos no que de melhor existe dentro de nós e, por desatenção, deixamos que se esconda na espuma dos dias. Não é por acaso que afirmámos uma Língua que é a sexta ou a sétima mais falada em todo o mundo. Não é por acaso que a fome de risco, de liberdade, de justiça social que nos habita há séculos nos tenha levado, por vezes, à genialidade. Das Descobertas à abolição fundadora da pena de morte, do fim da escravatura à luta pelos direitos de cidadania. Por todos os cantos do conhecimento e do saber, da aventura e do risco, estão portugueses. Poucos, é certo. Mas nunca fomos muitos. Fomos vadios, contrabandistas, ventres ao sol sem futuro e com fome, muitas vezes magoados, porém, sempre saltámos por cima da tristeza e construímos uma Pátria com um passado honrado, um chão que há-de ser o sítio da felicidade dos nossos filhos. Tem de ser assim. Não existe Mostrengo no fim do mar das nossas angústias que nos possa vencer. Venham a Santarém. Esqueçam por estes dias os velhos do Restelo que não morreram desde a partida das primeiras caravelas. Venham. Ainda por cima, come-se bem.

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