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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Janeiro de 2006 às 17:00
A expressão não é nossa. É de Santana Lopes. A pouco mais de oito dias das eleições, o delfim há muito caído em desgraça disse de sua justiça, E mordeu no dono. O ex-futuro, possível e sempre disponível candidato à Presidência, afinal, ainda fala. A direita também tem disto. Personagens de opereta. Mas também ele acordou tarde. A esquerda continua numa gritaria ensurdecedora, mas os ouvidos atentos não se enganam. A esquerda, finalmente, já percebeu os seus erros (que repetirá até ao fim dos tempos como os alunos desatentos) e o seu destino. E só por uma questão de honra (a velha honra republicana?) não capitulou. Sente-se incomodada pela teimosia e uniformidade das sondagens e, imitando Cavaco, vai brindar-nos com mais uma semana de monotonia. Não tem mais nada a dizer. Resta-lhe puxar pelos indecisos e oferecer o corpo às balas. Morrer em combate é a sua divisa e será a sua glória.
Os não presidenciáveis fazem o que lhes compete. E podem. Mostram-se, denunciam, barafustam e preparam um futuro político (deles próprios) que nunca chegará.
Cavaco, o não político (lembram-se ?), vai continuar a exceder-se e a mostrar-se cada vez mais político. Pecadilhos circunstanciais. Imperativos de campanha. Muito a medo, não vá o diabo tecê-las, agita-se e solta a carapaça. Sensível ao eleitoralismo mais ou menos primário, mais ou menos elegante, mas, essencialmente, produtivo.
Já se passeou com Jardim, no seu couto privado. Já esclareceu que nunca entendeu essa história do défice democrático. Já beija crianças e velhinhas. Já louvaminha líderes partidários. Apurou a linguagem e já exibe os mesmos tiques eleitoralistas dos seus adversários, temperados, apenas, pelo cuidado de não estragar o que já encontrou feito.
Sente-se eleito. Não demorou muito a fazer-se ‘um homenzinho’. A não destoar. A merecer as honras da família, que o aguarda, ansiosa. A ficar cada vez mais igual aos outros. É a nossa maldição. Vai ser uma edição revista e actualizada de Eanes? Vai ser uma versão economicista e menos sorumbática de Sampaio? Vai ser um agitador como Soares? Ninguém sabe. Cavaco é um portuguesinho de boa cepa, atilado, que subiu na vida e parece não ter percebido ainda muito bem o que lhe está a acontecer. Um político com (suposto) horror à política e aos políticos. Está ao lume o caldo de cultura perfeito para a gestação de um pouco original tipo de populismo cor--de-rosa (como todos são inicialmente) mas com virtualidades camaleónicas, suficientemente indefinido para merecer a nossa curiosidade.
Se mantiver uma postura de seriedade, domesticar os partidos e acabar com todos os fenómenos Iberdrola deste País (que são uma praga) e seus fantásticos e verdadeiramente asquerosos personagens, já muito teremos que lhe agradecer.
Oxalá tenha a modéstia e a lucidez suficientes para perceber que fica a dever a sua eventual eleição a uma massa de eleitores que vota na esquerda ao domingo e na direita à segunda-feira. O grande partido sem nome que ganha, afinal, todas as eleições e tira o sono a todos os malabaristas da política que tratam, soberbamente, da sua vidinha e infernizam a nossa. E que é, para mal dos nossos pecados, o único atestado de saúde (mínima) desta delirante democracia.
Quanto ao resto, só Cavaco não sabe. A massa eleitoral que venha, eventualmente, a elegê-lo, liquidar-lhe-á as aspirações populistas. Deprimente, não é?
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