Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
6
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Sem história

O julgamento da Casa Pia continua sem história. Catalina Pestana está a contar o que lhe contaram. Não é prova de facto. É testemunho de ouvir dizer.

Francisco Moita Flores 6 de Abril de 2005 às 00:00
Mas ao falar está a responsabilizar os rapazes que lhe contaram o que ela contou. Por isso, o que importa deste depoimento é exactamente o que vão dizer as vítimas, e se os seus depoimentos confirmam e complementam o que a Provedora tem estado a dizer.
Talvez a coisa anime na próxima semana quando a Defesa usar do seu direito de perguntar. Mas há uma coisa que é certa: Catalina comprometeu seriamente toda a estrutura directiva da Casa Pia dos últimos anos, chegando ao ponto de ela mesmo assumir a sua quota de responsabilidade. É um reconhecimento importante de quem devia ter zelado e não zelou, educado e não educou, e permitiu que o clima de impunidade e ‘rei sem roque’ estivesse instalado naquela instituição há décadas.
Julgo ser o momento decisivo do que foi dito até este momento. E por isso mesmo é de admitir que o tribunal venha a reflectir sobre a conduta dos responsáveis que se submeteram, ou por interesse próprio ou por mera negligência, a esta ditadura do silêncio e da omissão.
É que a Casa Pia tem um estatuto especial. Não é uma mera instituição de solidariedade com jovens desprotegidos. É a instituição do Estado, a mais antiga, o emblema de uma pátria que se diz organizada exactamente para proteger as crianças mais desvalidas. Não é uma mera repartição pública. Tem obrigações de carácter pedagógico, assistencial e de cuidados que vão muito para além da gestão de um orçamento e da boa funcionalidade do organismo.
Se o escândalo tomou as proporções que tomou, com todo o rosário de mágoas, desencantos, vinganças, raivas, ódios, tudo o que de pior existe na natureza humana, tudo se deveu a esse acto fundador que foi a falta de consciência e de responsabilidade de quem devia proteger e não protegeu, de quem devia assegurar a lisura e a transparência dos processos de formação e integração e os desprezou. Mal irá este processo se este limite de responsabilidades não for apurado. E nisso, Catalina Pestana deu o pontapé de saída. Haja agora talento e competência para separar o trigo do joio.

Moita Flores escreve sobre o processo Casa Pia aos sábados e quartas-feiras
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)