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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Janeiro de 2005 às 00:00
Simone Ferreira não quer que lhe falem em limites. Tem 26 anos, sofre de paralisia cerebral e é a protagonista do filme "No fio dos Limites", da realizadora alemã Cristine Riech, um documentário que pretende sensibilizar a sociedade para os problemas das pessoas portadoras de deficiência.
No filme, tal como na vida, Simone revela o olhar dos outros sobre a deficiência: as suas agruras e dificuldades, mas também a sua vontade de viver e de se sentir útil numa sociedade que, tal como afirma Cristine Riech, "não está preparada para a existência de deficientes".
Nascida numa família humilde de Ribolhos, no concelho de Castro Daire, Simone Ferreira foi descoberta por Cristine Riech quando procurava uma pessoa com determinadas características para ser a protagonista de um filme que ilustra as "múltiplas dificuldades" de quem é portador de deficiência.
"Foi amor à primeira vista", afirma a realizadora alemã que desde logo sentiu que Simone era a actriz "perfeita e ideal" para um papel onde "não era preciso representar", mas antes "mostrar aquilo que diariamente faz". Como por exemplo preparar o pequeno-almoço, escrever, falar ao telemóvel, pôr a mesa ou simplesmente estar à lareira.
Quando soube que foi a escolhida para ser a protagonista do filme, Simone Ferreira não coube em si de contente, ela uma mulher que apesar das limitações, luta para se sentir útil e para fazer aquilo que o comum dos mortais faz: trabalhar, ter uma família e não se sentir dependente, por mais antagónico que pareça. "Foi muito bonito fazer o filme, conheci novas pessoas e fui muito bem tratada", confidencia a jovem.
"Posso ser muito útil, eu quero ser útil e não gosto que me vejam como uma coitadinha, porque eu não o sou. Tenho sentimentos, tenho gosto em viver, sinto-me é apenas traída pela minha deficiência da qual não tenho culpa nenhuma", refere à Domingo Magazine Simone Ferreira.
Por causa da participação no filme, Simone tem sido convidada para participar em seminários e colóquios onde a deficiência é tema central. Fá-lo com gosto e delicia a plateia com o seu à-vontade e determinação em defender "que as pessoas com deficiência, à sua maneira, são tão válidas como as outras".
Essa também é a ideia da realizadora Cristine Riech, que com o filme pretende demonstrar que os deficientes "são pessoas como nós" e apenas têm diferenças físicas.
"Através deles podemos ver o grau de humanismo de nós próprios, eles ajudam-nos a redefinir os valores da vida. Nós temos muito a aprender com pessoas como a Simone. As limitações das pessoas com deficiência muitas vezes surgem por causa da inacessibilidade às condições certas de educação e pela exclusão social em geral. Muitas vezes não são desejados. O que podemos aprender com a Simone é que há sempre um sorriso possível no meio das lágrimas", salienta Cristine Riech que ficou encantada com a jovem de Castro Daire.
Simone concorda com a sua amiga alemã. A jovem dá mesmo um exemplo: foi convidada para trabalhar no arquivo da Confederação Nacional dos Organismos de Deficientes (CNOD), em Castro Daire, mas ainda não está no activo porque até hoje não foi encontrada uma sala apropriada a ela. "Estou muito triste e quero começar a trabalhar o quanto antes. Estou farta de estar em casa sem fazer nada", afirma a jovem.
AMOR DE MÃE
Simone Ferreira tem quatro irmãos. Ela é a mais velha. A mãe, Célia Ferreira, lembra que quando era miúda a Simone "não gostava de meninas", pensava que era deficiente "por ser rapariga".
"Mas quando viu a irmã a andar pela primeira vez chorou de alegria, ficou muito contente, mas perguntou: 'Mãe, porque é que a mana anda e eu não?'", conta Célia Ferreira que desde sempre acompanhou a Simone para todo o lado.
"Eu era uma pessoa muito tímida e com grandes dificuldades em resolver certos problemas. Foi a Simone que me obrigou a ser quem sou; ela fez-me diferente pela positiva, ensinou-me a lutar", acrescenta Célia Ferreira que se mostra orgulhosa da forma de estar da filha.
Tal como todos os jovens, Simone gosta de se divertir, sair com os amigos e tem os seus ídolos. Benfiquista desde pequenina, gostaria um dia de ir ver um jogo do seu clube e de estar com o seu jogador preferido: Nuno Gomes. No plano musical, é admiradora do espanhol Henrique Iglesias.
"Gosto muito de ouvir música, de ir às discotecas e de estar com os amigos", referiu a jovem, salientando que gostava de ter um filho, mas não tenciona casar, porque o casamento "é uma prisão". "Já me apaixonei, mas desiludi-me", refere Simone Ferreira, que em cada expressão solta um genuíno sorriso de felicidade, apesar das contrariedades com que tem que lidar diariamente. "Sem culpa nenhuma", conclui.
‘NO FIO DOS LIMITES’
Simone Ferreira, a actriz, partilha com a protagonista do filme 'No Fio dos Limites' mais do que o nome. A obra da alemã Cristine Riech narra a história de Simone, uma rapariga de 26 anos que vive perto de Viseu.
A personagem tem paralisia cerebral: não pode andar nem estar em pé, mexe uma mão com dificuldade e fala de uma maneira dificilmente perceptível por desconhecidos.
Embora esteja a fazer um estágio na biblioteca mais próxima, o seu futuro está aberto: será que alguma vez vai ser capaz de manter um emprego? Será que alguma vez vai poder viver independentemente dos pais? Será que alguma vez vai ter sorte no amor? Simone sente-se isolada da sociedade mas a sua alegria de viver continua inabalável.
CRISTINE RIECH
"NÃO ESTAMOS PREPARADOS"
A alemã Cristine Riech vive em Portugal há oito anos. Fez uma série de quatro filmes sobre pessoas portadoras de deficiências profundas – obras essas muito solicitadas por escolas e autarquias.
O objectivo é claro: sensibilizar o público para as dificuldades que as pessoas com capacidades diminuídas enfrentam no quotidiano.
Uma realizadora alemã faz filmes em Portugal. Porquê?
Não cheguei a Portugal para fazer filmes. Vivo cá há oito anos, passei um terço da minha vida em Portugal. Tenho aqui muitos dos meus amigos e faço simplesmente o meu trabalho. Estou nesta situação por curiosidade, espírito de aventura e por prazer. No entanto tornei-me uma ‘inbetweener’, alguém que vive entre duas culturas e isto reflecte-se nos meus filmes como acontece em 'Exílio', 'Paraíso em Lugar Nenhum' e 'Requiem para a Minha Mãe'.
O que pretendeu ao rodar 'No Fio dos Limites'?
Este filme faz parte da série 'Outros Sonhos': 'Olhar por Dentro', 'Fragmentos de um Tempo Lento', 'No Fio dos Limites' e 'Mundo Silencioso'. É uma tetralogia sobre vários tipos de deficiência e cada um dos filmes retrata um caso específico: cegueira, deficiência motora, paralisia cerebral e surdo-mudez. Estes filmes têm sido solicitados por escolas, câmaras municipais e associações de todo o País, o que me surpreendeu. O objectivo é a sensibilização para os problemas das pessoas portadores de deficiência, e tentar mudar a mentalidade de encarar e ver estas pessoas.
Porque é que escolheu a Simone?
A Simone é uma jovem mulher muito especial. Dentro do ambiente social em que vive é uma provocadora. A provocação dela, passa pelos desejos simples que qualquer jovem na idade dela tem e nos quais insiste incansavelmente: namorar, ir à discoteca, ter um emprego e viver independente dos pais. Estes desejos tornam-se incompatíveis com a sua deficiência: ela não consegue andar, mexe uma mão com dificuldades e a sua fala é dificilmente perceptível.
Ir à discoteca na situação da Simone é um acto revolucionário, e o convívio autónomo com as suas duas amadas amigas, elas próprias deficientes, um acto de resistência. A grande sorte da Simone é saber seduzir: Simone é bonita e viva, gosta de divertir-se e gosta de partilhar esperanças e problemas. Eu própria não fui capaz de resistir a Simone.
Ela saiu-se bem na representação?
O trabalho com ela foi extremamente rico. Ela tem um espírito rebelde e nunca faz exactamente o que se pede: sempre acrescenta algo surpreendente dela própria. Simone é aberta a tudo que sejam experiências novas e a comunicar com outras pessoas. As dificuldades dela, de ficar à vontade em presença da equipa e com a câmara, foram fáceis de ultrapassar, com amizade.
Em seu entender, como é que a sociedade portuguesa vê as pessoas portadoras de deficiência?
A sociedade portuguesa é como é, e, apesar de eu ser alemã, podia começar por mim própria: nunca antes na minha vida tinha conhecido de perto pessoas portadores de deficiências profundas. Não procurei o contacto deles porque a diferença física deles, no fundo, assustava-me.
Assim tentei esquecer-me que eles existiam, porque a sociedade também não fornece muitas possibilidades de contacto. Se eu tivesse tido cegos, surdos ou alguém com paralisia cerebral como colega no liceu, se calhar, já pensaria de outra maneira e teria reconhecido mais cedo o que há para aprender com eles.
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