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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Maio de 2003 às 00:00
1. Nos últimos dias, Portugal transformou-se num episódio pelintra e longo, longuíssimo, de "As Teias da Lei". De toda a parte, emergem nos "media" e nos cafés peritos judiciários, “analistas" e meros especuladores, subitamente muito interessados em discutir questões até aqui miseravelmente ignoradas, da prisão preventiva à presunção de inocência, do segredo de justiça às escutas telefónicas.
Por sorte, há uma pequena resistência a esta diarreia, vinda de pessoas que, não sendo juristas nem malucos, entendem não dever ultrapassar o comentário das implicações políticas do caso, ou do folclore que o caso despertou. O que já vai dando trabalho que chegue, sobretudo desde que o PS decidiu usar a detenção do dr. Pedroso para exibir, de modo mais ou menos franco, um fundo desdém pelo regime a que parecia perfeitamente adaptado.
Vale a pena insistir: uma coisa é afirmar que se confia plenamente na inocência do amigo X; outra é garantir que, se a inocência do amigo é posta em causa, então é porque estamos a viver tempos sombrios, em que movimentos subterrâneos conspiram contra o Bem e etc. Albert Camus dizia acreditar primeiro na mãe dele, e depois na Justiça. É um digno sentimento num homem, mas uma receita para o caos se levada à prática e ao comício improvisado por representantes públicos e forças partidárias (que não se resumem ao PS).
O pandemónio agrava-se quando, ainda por cima, os delírios socialistas são amplificados por certo "jornalismo" indignado, empenhado em desmontar uma "cabala" tão ardilosa e secreta que só a Justiça, de ceguinha, a não vê. Se a regra é a da tontaria gratuita, podemos contra-atacar com a hipótese de uma reacção corporativa das nossas tristes "elites". As exactas "elites" que acham óptimo sempre que um "Bibi" qualquer é posto à sombra, e que se revoltam a uma voz mal se sentem beliscadas. As "elites" cuja fé democrática goza de vasta publicidade e limitado alcance. As "elites" que, a sermos igualmente sinuosos, terão assegurado, ao que consta, o afastamento próximo do juiz Rui Teixeira (por ser novo e usar ganga?).
Poupemos nos exageros. Se me permitem uma humilde opinião, e embora se trate do lugar-comum mais enfadonho da semana que passou, concordo apenas que, de facto, é preciso "serenidade" - o que serve também para quem pretende ridicularizar a investigação, desvalorizando os seus responsáveis. No resto, julgo que a eventual culpa (ou inocência) dos envolvidos na história da Casa Pia devia ser-nos absolutamente indiferente. E que, enquanto princípio, a prisão de gente influente devia descansar-nos sobre a desejada igualdade perante a Lei.
Mas isso sou eu a falar. E eu, ao menos em matéria de pedofilia, ponho as mãos no fogo por mim.

2. Leio no "Diário de Notícias" os resultados da última sondagem das "presidenciais" (o tal assunto que o primeiro-ministro baniu por decreto). Os números não suscitam grandes dúvidas: Cavaco ganha em termos absolutos; Cavaco vence Soares; Cavaco esmaga Guterres. Fico ligeiramente deprimido. Achei sempre melancólico o relativo fascínio que, passe a zanga de 1995, o professor exerceu sobre os portugueses. E, para ser sincero, nunca percebi o que é que eles viam nessa mistura típica de acólito e contabilista. Reminiscências de Salazar? Até certo ponto, talvez, mas o paternalismo de Cavaco foi perfeitamente compatível com o regime democrático - o que, a juntar à falta total de "carisma" do homem, invalida o grosso da tese.
Se calhar a resposta é comezinha. Se calhar, os portugueses preferem Cavaco por exclusão de partes: basta lembrarem-se do Governo que o antecedeu e do que se lhe seguiu. Como, nas "presidenciais", basta verem as opções à direita e a potencial oposição à esquerda. Ao contrário do que ele próprio pensa, é possível que ninguém veja no professor a versão comunitária do Messias. Mas somente o mal menor, face a alternativas que, dr. Soares incluído, não deprimem: metem medo.
albertog@netcabo
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