Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
6
27 de Fevereiro de 2014 às 18:27

"A reforma da ortografia portuguesa de 1911 teve como objetivo contribuir para uma democratização cultural, funcionando como um instrumento de combate ao analfabetismo. Esse espírito está patente em outras iniciativas desencadeadas até se estabelecer o Acordo Ortográfico (AO), em 1990. A Assembleia da República aprovou-o, por larguíssima maioria, bem como aos Protocolos Modificativos que se seguiram, dando origem a um tratado entre os países que têm como oficial a língua portuguesa.

Em qualquer reforma, há uma geração que se confronta, sempre penosamente, com uma transição; foi o que aconteceu depois de 1911 e de 1945. Porém, não consta que os portugueses de então tenham ficado traumatizados, perdido as referências culturais ou a identidade nacional.

A perspetiva deve ser a de se caminhar com confiança. Assim se está fazendo nas escolas deste país, com alunos e professores empenhados no sucesso da aprendizagem..

É falsa a crítica de que o AO impõe na grafia do Estado qualquer caos maior do que o que muito temporariamente acarretam todas as reformas, como também não são baseados em critérios científicos muitos dos reparos de ordem técnica. Estudos rigorosos e verificáveis apontam para uma maior convergência, na proporção de cinco para um, entre a ortografia portuguesa e brasileira. Este AO é um compromisso para o futuro e como tal deve ser encarado.

O AO tem sido aplicado em Portugal, dentro do planeado, bem como no Brasil, cujo embaixador confirmou em recente carta aos deputados portugueses que o seu país está determinado na reforma. É natural que nos restantes países da CPLP seja necessário assegurar a existência prévia das condições tecnológicas e humanas, o que está a ser feito, no âmbito do Vocabulário Ortográfico Comum, como previsto no tratado.

O AO não fere a dignidade de Portugal nem da sua língua. Mantendo o respeito por todos os povos, sem ninguém se impor ou vergar, todos passamos a escrever segundo um único ditame legal. Quem o quiser aplicar tem à sua disposição bons instrumentos; quem não o quiser, por convicção, preguiça, ou até snobismo, continua a ter liberdade para escrever conforme os seus conhecimentos, como sempre o fez.

Uma coisa é certa: as gerações que estão fazendo a sua aprendizagem com as novas regras não irão rejeitar o legado ortográfico que esta geração lhes deixou. Este é um acordo para o futuro. É nossa obrigação não recuar e, como escreveu José Saramago, "é preciso cumprir o que foi assinado"."

Carlos Enes deputado PS acordo ortográfico
Ver comentários