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Correio da Manhã

Opinião
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Francisco Moita Flores

Skins na prisão

“Não são partido nem movimento de opinião [...] afirmam-se como um grupo marginal, desorientado”.

Francisco Moita Flores 5 de Outubro de 2008 às 09:00

É a primeira vez que um tribunal judicial condena alguém por força de comportamentos racistas e quem ouviu as declarações do líder do grupo sentenciado perceberá que este protagonismo pretensamente ideológico de um nacionalismo radical resulta de um emaranhado de confusões, distorções e revisões da História que não abona nada em favor deste grupo de revoltados.

Pois não são mais do que um grupo de revoltados que remetem para o território do ódio ao que é novo, ou diferente, as maleitas do País. O anseio por um País escorreito, livre de imigrantes e de pessoas de cor, é a negação da própria História que dizem defender. As abordagens que fazem sobre a violência e como ela se produz são de tal forma simplistas que só encontram legitimação na própria violência do seu vocabulário e práticas.

Em suma, não são partido nem movimento de opinião, pelo contrário, afirmam-se como um grupo desorientado, marginal e sem qualquer capacidade de produzir leituras críticas sobre o mundo e sobre a vida e, por isso mesmo, a incapacidade de racionalizar atira-os de imediato para soluções brutais contra aquilo que não compreendem. Matar um negro, estropiar um imigrante, impor o regresso do macho lusitano, bárbaro e agressivo, são, para alguns destes grupos, vitórias (?) que reforçam a auto-estima e lhes garantem a caminhada para a redenção de Portugal.

Os skins são um subproduto, é certo, heróis de uma violência ressabiada, um contributo para melhor percebermos que, 98 anos depois da República que hoje se comemora, as utopias da liberdade, da igualdade, fraternidade, que foram o seu sonho maior, estão por realizar e todo o séc. XX é a demonstração da falência deste combate. Não existiu em algum momento da História da Humanidade um século tão brutal, tão violento, tão fratricida.

A guerra teve o seu mais mortífero palco durante este século. Se esmiuçarmos as condicionantes essenciais de todos os conflitos existe um denominador comum que remete para o erro fundamental do pensamento iluminista de que o republicanismo foi herdeiro. Assumimos a política como a arte final da gestão da vida pública. Mas não lhe foi inoculada a vacina que João de Deus idealizava quando criou a sua Cartilha Maternal. Falta-lhe o valor do saber que vai para além da racionalidade. O valor do saber que confere à política e aos restantes actos da vida humana a dimensão mais sublime da cultura, ou seja, o patamar superior da solidariedade e dos afectos.

E o antigo analfabetismo foi substituído pelo novo analfabetismo, que se legitima na razão que não entende, incapaz de perceber e de modificar o mundo livre, fraterno e sem fome que devemos construir para os nossos filhos.

 

 

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