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Correio da Manhã

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Francisco Moita Flores

Sobrevivência

Já que perdemos a soberania para a troika, ao menos que não se perca a dignidade. 

Francisco Moita Flores 13 de Outubro de 2013 às 01:00

Anotícia caiu como uma bomba. O governo prepara-se para ir buscar cem milhões de euros às pensões de sobrevivência e, a ser verdade a notícia, ela toca um limite intolerável que ninguém, por mais compreensivo que seja com a grave crise que o País atravessa, está em condições de moralmente aceitar.

Nem se trata de política. Nem se trata de mais ou menos justiça na repartição do caos que durante décadas atirou o País para o estado em que se encontra. É pura e simplesmente imoral.

Ainda por cima, num território financeiro em que se discutem milhares de milhões de euros, o valor da poupança é irrisório e traduz-se, nas suas finalidades últimas, num ato desumano para quem já pouco vive. Apenas sobrevive.

Nem vale a pena invocar os argumentos técnicos e formais que tornam a pensão de sobrevivência no último dos redutos para que os idosos governem os seus pobres dias. Ela resulta da morte de alguém, seja o marido ou a mulher. É a mínima herança que uma vida de trabalho lega a quem ficou. É muito mais do que um regime de pensionato. É o testemunho da solidão, da saudade, dos dias melhores, da memória conquistada ao longo de décadas descontando para que quem do casal ficasse vivo tivesse no resto dos seus dias esse testemunho de quotidianos conquistados lado a lado.

Com trabalho, muitas vezes com sacrifício e, após a morte, como um testemunho de parceria dos tempos vividos a dois. São, sobretudo, viúvas quem tem esta pensão. Idosas, doentes, incapazes de desafiar o que lhes resta de futuro. A maioria em luta pela capacidade de viver com dignidade. Todas com o olhar cheio de solidão.

É esta dimensão da velhice que está inscrita naquele direito à pensão de sobrevivência e, por mais pobre que seja um país, o seu património de memória, seja singular, seja coletiva, é um bem impenhorável. Já que perdemos a soberania para a troika, ao menos que não se perca a dignidade.

Para que possamos viver como Povo. Sem vergonha de nós próprios.

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