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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Março de 2006 às 17:00
Paris, sempre Paris, é o palco privilegiado para as ‘explosões sociais’ dos nossos dias. Pelas melhores e pelas piores razões.
No passado, esta ‘militância de rua’ movia-se por valores mobilizadores como a igualdade, a fraternidade e a solidariedade. Eram os tempos do combate contra as regras laborais impostas por uma injusta sociedade pré-industrial. Depois, na década de 60, foi a revolta contra alguns estereótipos capitalistas.
Hoje, já não são estes bons exemplos que mobilizam ‘a rua’. Não só Paris mas toda a França é, por estes dias, outra vez palco de uma ‘explosão social’ que mobiliza sindicalistas e estudantes contra a legislação sobre emprego jovem, o chamado Contrato Primeiro Emprego, do primeiro-ministro Dominique de Villepin.
Num país que, como acontece na generalidade da Europa, forma milhares de jovens condenados a serem um ‘proletariado’ desempregado e culto, o executivo francês avançou com uma medida estimulante: a contratação preferencial de jovens, em troca da flexibilidade das regras laborais.
Caiu o Carmo e a Trindade. A rua foi invadida pelo ruído e pelo vandalismo, num ‘remake’ dos protestos protagonizados pelos jovens dos subúrbios de Paris, há meses atrás.
Na linha da frente dos distúrbios apareceram os jovens universitários, de estratos socioeconómicos médios e altos. Paradoxalmente, os trabalhadores desempregados de longa duração e os jovens sem qualificação ficaram em casa. Como em Maio de 68, a ‘rua’ foi tomada de assalto pela burguesia estudantil e pela frente sindical.
Perante este cenário, é legítimo equacionar a questão da governabilidade das actuais democracias representativas.
Mais uma vez, líderes estudantis e dirigentes sindicais unem-se, visando defender o ‘status quo’ a qualquer preço.
Os responsáveis políticos das actuais democracias europeias têm pela frente um desafio de grau de dificuldade máximo. Manter o actual modelo do Estado Social, tornando invioláveis os direitos sociais conseguidos nos últimos 50 anos, mas permitindo encontrar condições sociais que aumentem a competitividade das suas economias.
A flexibilização da legislação laboral é uma das inevitáveis moedas de troca. Será o preço a pagar para se obter o acesso geral, universal e tendencialmente gratuito a serviços públicos, como o ensino e a saúde.
Esta receita também serve para Portugal, onde seria importante que o Governo iniciasse um ciclo de reformas que desse prioridade à flexibilização da legislação laboral.
Em 1961, J.F. Kennedy pronunciava em Berlim a famosa frase: “Somos todos berlinenses.” E agora: “Somos todos franceses ?”
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