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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Novembro de 2007 às 09:00
Se a nossa sorte (política) fosse directamente proporcional à de Sócrates éramos uns sortudos. E podíamos dormir descansados. Mas, infelizmente, não o é. Até que Sócrates nos demonstre o contrário a sorte dele é o azar de muitos Portugueses. Com os deputados do PS-Madeira a dar-lhe turrinhas nas canelas e a ronronar, felizes, lá aprovou o seu OE para 2009. Num cenário de delírio, pasmaceira e déjà vu.
Discutir a repartição inteligente das receitas dos impostos e dos donativos que, ainda, escorrem da Comunidade seria muito simples se o Governo tivesse um programa e o executasse com seriedade. Assim, não. A discussão do Orçamento confirmou as nossas piores expectativas. No Parlamento, enquanto o CDS e o PSD se não renovarem, em vez de se remendarem, Sócrates fará gato sapato dos seus opositores. Mesmo correndo o risco de infantilizar, ainda mais, os supostos grandes debates da Nação. O regresso de Santana e de Portas teve a única saudação possível. “Regresso ao passado” lhe chamaram. Mas há quanto tempo se transformou a nossa vida política num fatídico regresso ao passado? Mas não é com estes gastos episódios de suposta eloquência parlamentar reduzida a um karaoke de velhas rimas que devemos preocupar-nos.
O que nos deve preocupar é o abrupto regresso ao passado nas condições de vida dos Portugueses. A exclusão social é um regresso ao passado. O aumento da pobreza é um regresso ao passado. O aumento do desemprego é um regresso ao passado. A perda de benefícios na área da Saúde e Segurança Social é um regresso ao passado. A eleição de Menezes e o Congresso de Torres não foram, também, um patético regresso ao coliseu?
A nossa história política, pelas teias que ela própria teceu e pela falta de decoro dos seus actores, tem, há muitos anos, como tema central o regresso ao passado. Se os Portugueses não redobrarem a sua atenção chegará o dia em que ficaremos de novo à mercê das tropelias de um Estado que não sabe criar riqueza nem dinamizar a economia e muito pede e, por sua vez, nada nos garante. Os nossos pequenos gozos limitam-se a estas cenas de cabaré em que os bobos da depauperada corte expõem mútuas fraquezas e se insultam uns aos outros. A própria postura de Menezes depois da sua eleição como líder do PSD é um regresso ao passado. Menezes, o populista que viveu anos a fio em bicos dos pés e a glorificar o povo, em 24 horas mudou de tom, como se tivesse tomado um duche purificador. Julga, agora, que o populismo é fatinho que já lhe não serve. Recusa referendos. Quer alianças com o poder. O bom povo do PSD já não existe. Finge aquilo que nesta abençoada terra se tornou costume chamar “postura de estado”. Resguarda-se. Atira para a frente de combate todos quantos sejam tão populistas como ele e espera que o PS caia de podre. Não foi o tempo que atirou Barroso para o poder?
Pois bem. Menezes aguarda idêntica sorte. Só que o populismo é a única arma que Menezes sabe lidar. E sem ele facilmente soçobrará. O núcleo duro do PSD que tratou da saúde a Santana mantém-se calmo. Sabe que ao reeditar Santana, Menezes, de entre as várias máscaras com que poderia disfarçar-se, escolheu a pior possível. A do político que tarde de mais quis ser levado a sério. Ao escolher a máscara Santana, Menezes, afinal, mascarou-se de si próprio. E... desmascarou-se.
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