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Correio da Manhã

Opinião
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8 de Fevereiro de 2004 às 00:00
Certa vez, um colega meu interrogou um empregado de um pequeno restaurante. O casal proprietário não tinha parentes. O arguido planeou ficar com o estabelecimento para si e não arranjou melhor solução: matou os patrões.
O meu colega juiz decidiu que ele iria aguardar o julgamento em prisão preventiva. Mas advertiu os agentes policiais:
- Ele vai tentar suicidar-se. Não quer confrontar-se com o mal que fez. Não tem coragem de enfrentar a pressão que resulta de ter sido apanhado.
Assim sucedeu. Dias depois, o prisioneiro surgiu enforcado. Há vários factores que levam um recluso a suicidar-se. A colocação num estabelecimento prisional longe da família aumenta os riscos. A falta de ocupação profissional ou de ensino é outra causa importante. A agressividade por parte de outros detidos pode também despoletar um suicídio. O rompimento de um relacionamento afectivo e o afastamento dos filhos são circunstâncias decisivas.
Depois, há uma série de momentos que criam situações de stress. São as deslocações ao tribunal, visitas ansiosamente esperadas que não se concretizam, exigência de pagamento de dívidas por parte de outros presos, recusa de liberdade condicional ou saída precária, medidas disciplinares, aniversários (do nascimento, da data de detenção ou do crime), morte de um familiar, o suicídio de outro colega prisioneiro e, claro, a própria leitura da sentença condenatória.
O preso suicida mais famoso foi Rudolf Hess. Em 1946, o dirigente nazi foi condenado a pena perpétua. Recolheu à cadeia de Spandau, propositadamente construída para criminosos de guerra. Vinte anos mais tarde, viu partir Albert Speer e Baldur Schirach. Os seus últimos companheiros foram colocados em liberdade. Hess tornou-se o único prisioneiro de Spandau. Dezenas de guardas vigiavam o enorme complexo, que se mantinha em funcionamento apenas para um recluso. Passou a ser conhecido como o homem mais solitário do mundo.
Rudolf Hess tentou inúmeras vezes pôr termo à vida. Mas a segurança era apertadíssima. Em 1987, um técnico foi efectuar reparações à cadeia e abandonou um pedaço de cabo eléctrico. Aos 93 anos, Hess escreveu uma carta de despedida. Enrolou o fio à volta do pescoço e deixou o mundo dos vivos.
Nenhum dos arguidos que mandei para a cadeia veio a suicidar-se. No entanto, passou-se um caso curioso.
Julguei um homem que tinha sido condenado várias vezes por conduzir embriagado. Aquela já era a quarta ocasião.
Tudo apontava para que ele tivesse de cumprir uma pena de prisão. Resolvi reflectir. Marquei a leitura da sentença para uma semana mais tarde. Com a ajuda da Prevenção Rodoviária Portuguesa, encontrei uma solução alternativa.
Mas na véspera da sentença, vieram-me contar:
- O Carvalho anda a dizer que no caso de o Sr. Dr. Juiz o mandar para a cadeia, ele mata-se.
Se o objectivo dele ao espalhar aquela informação era pressionar-me, tal não surtiu qualquer efeito. A minha decisão já estava tomada.
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