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Correio da Manhã

Opinião
14 de Novembro de 2003 às 00:00
1.Em toda a história do estádio do FC Porto, as pessoas menos incomodadas serão Mota Amaral e Rui Rio, que parecem dedicar às efusivas tricas da bola a mesma atenção que o sr. Pinto da Costa devota às boas maneiras. Ao contrário do que o sr. Pinto da Costa julga, a vingançazinha dos convites não recai sobre o presidente da AR, mas sobre todo o eleitorado, que o Parlamento, goste--se ou não, legitimamente representa. Tal como não ofende exactamente o autarca, mas, no mínimo, cada cidadão do município que votou nele.
O sr. Pinto da Costa, aliás, é dado a equívocos assim – por feitio próprio e, regra geral, beneficiando do consentimento alheio. A título de exemplo, não é somente por acaso que ele toma um clube desportivo centenário pela sua empresa particular. Ou que confunde uma propriedade construída, também, mediante investimentos públicos, com o seu quintal privado, de que põe e dispõe consoante os amuos diários.
Esta tendência para misturar a realidade com as fragrâncias que lhe vão na cabecinha tem causado ao sr. Pinto da Costa evitáveis dissabores. Em larga medida, ele pensa – ou actua como se pensasse – que os portuenses se esparramam a seus pés. Pobre homem: nem os "portistas". Amparado pelos risos mecânicos que as famosas graçolas suscitam, talvez ele não atinja que os boatos da sua influência são altamente exagerados. Aqui há uns anos, uma sondagem acerca de meia dúzia de possíveis candidatos à Câmara do Porto colocava o sr. Pinto da Costa na parte baixa da lista – atrás, inclusive, de um tal Narciso Miranda. Mais recentemente, a vitória de Rui Rio e o resultado pífio do PS nas legislativas, após a "polémica" das Antas, deviam ter retirado ao sr. Pinto da Costa as últimas ilusões.
Deviam, mas não retiraram. Apesar de tudo, e além do poder material que as áreas sombrias do futebol hoje concedem, o sr. Pinto da Costa mantém a capacidade de influenciar o voto e o comportamento de uns tantos. Não serão imensos: apenas os suficientes para garantir a dependência de um razoável séquito, recrutado entre pequenos políticos, empresários, "jornalistas", fanáticos da bola e ociosos de índole vária. Na vassalagem que este bando lhe presta, o "Papa", por uma vez, não se equivoca.
As afrontas eleitorais, que o sr. Pinto da Costa sofreu por interpostas figuras, limitaram-se a agravar o conflito que ele abriu há muito com o mundo, e fizeram-no exigir ao séquito votos de redobrada fidelidade. Donde a "viagem a Sevilha" esteve longe de representar a mera balda de uns deputados em lazer, mas um teste da canina obediência ao chefe.
São estes deputados que, com uma ou outra excepção, farão romaria à estreia do estádio, em busca da sazonal bênção. Assim, no próximo domingo, os portugueses que não apreciam ser enxovalhados poderão contemplar em directo os rostos dos senhores que elegeram, e que trocaram o interesse comum dos respectivos mandatos pelo empenho numa grotesca causa privada. Se o canal que transmitir o evento acrescentar os nomes completos, os partidos e os distritos de candidatura dessa gente, estará a prestar um verdadeiro serviço público. O "Papa" é o menos, que um dia o "dragão" soltará fumo branco. O problema são os "cardeais".

2. Podem castigar-lhe o silêncio, mas há bons motivos para o dr. Ferro evitar assuntos distintos da Casa Pia. Um deles viu-se na quarta-feira, quando o alegado líder do PS pediu que se "repensasse" o envio dos GNR para o Iraque, na sequência do atentado em Nassíria. Ou seja, o dr. Ferro, mesmo a custo, admitia a presença portuguesa num cenário de conflito. Já não pode pactuar com essa presença no caso de o conflito se revelar – como dizer? – perigoso. Para o dr. Ferro, os nossos militares são vocacionados para batalhas sem riscos nem baixas, um conceito em desuso nos últimos cinquenta séculos. Isto é tanto mais curioso quanto o dr. Ferro está habituado, nas duras trincheiras do seu partido, a uma guerra sem quartel.
albertog@netcabo.pt
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