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Correio da Manhã

Opinião
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20 de Fevereiro de 2005 às 00:00
Mais de meio milhão de dramas. Esta semana soube-se que o desemprego contado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) atingiu o nível mais elevado desde 1998. São mais de 390 mil pessoas. Mas os números do INE não retratam fielmente a situação, uma vez que basta um desempregado ter feito um biscate de duas horas num dia qualquer para deixar de fazer parte da contabilidade oficial.
Outro indicador mais próximo da realidade é o dos inscritos nos centros de emprego e esse registo já ultrapassou há muitos meses os 450 mil. Se somarmos ainda as pessoas a quem o desespero e a desilusão já levaram a desistir de ir ao centro de emprego e outros que sobrevivem com alguns biscates aos quais é exagerado considerar emprego, a quantidade de pessoas afectadas por este flagelo ultrapassa largamente a fasquia do meio milhão.
Cada desempregado corresponde a um drama que atinge também os amigos e familiares. Apesar destes números assustadores, o desemprego não é o principal problema da economia portuguesa. O grande entrave é o anémico crescimento económico a os baixíssimos índices de produtividade. Só com dinamismo económico e mais produtividade é que se pode criar emprego.
Todas as políticas de combate ao desemprego, que não passam por uma aposta na capacidade de produção das empresas são artificiais e enganadoras. Acabam por se pagar posteriormente de forma ainda mais cara. Por exemplo, a ideia de o Estado financiar estágios para jovens desempregados tem vantagens, se o plano for bem feito e melhorar a formação desse capital humano, mas se for realizado como a maioria dos cursos de formação financiados pelo Fundo Social Europeu, arriscamo-nos a ter uma ficção em que apenas se substitui um subsídio de desemprego por uma prestação a que se convencionará chamar salário.
Se os crimes de lesa-pátria do desperdício dos euromilhões dos cursos de formação profissional tivessem sido julgados em tribunal, pelo menos agora haveria mais cuidado e exigência no planeamento dos novos estágios.
Rei Nu. Ernâni Lopes e Medina Carreira são dois ex-ministros das Finanças que geriram as contas públicas em tempos muito complicados. E hoje são dois dos poucos senadores da República que alertam que o rei vai nu. Ernâni Lopes disse em entrevista ao ‘Expresso’ que “não há retoma à vista”.
Medina Carreira, num depoimento para o Correio da Manhã, referiu que dentro de 10 anos o Estado arrisca-se a não ter solvência para honrar os seus compromissos financeiros. O problema é o peso da despesa pública para um Estado que nas contas de Medina Carreira suporta directamente 4,5 milhões de pessoas (3,8 milhões de pensionistas e subsidiados mais cerca de 700 mil funcionários públicos).
Ciclo de pobreza. O fraco crescimento conduz-nos a um provável cenário de nos tornarmos os mais pobres da Europa. Já fomos ultrapassados pelos gregos. Agora qualquer novo membro da União almeja esse objectivo e poderá consegui-lo.
Mas se o antídoto for a procura interna, só contribuirá para agravar a degradação da balança externa e o endividamento, porque Portugal não tem capacidade produtiva para suportar os aumentos do consumo no País.
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