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Correio da Manhã

Opinião
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29 de Abril de 2006 às 17:00
O mundo foi sempre assim. Os que olham para a frente e os que ficam nostálgicos do passado e tentam travar a mudança e a modernização, invocando a ordem antiga como a mais promissora. É desta cepa que se fizeram os juízes da Inquisição, os que perseguiram os inventores, os cientistas, os filósofos, os poetas, os que trouxeram novos mundos ao mundo.
Nos dias que correm, os que imaginam o mundo sem a televisão e sem os computadores, coisas do diabo, progresso maldito que destrói a civilização, continuam a cruzada contra o mais democrático dos meios de Comunicação Social. Diabolizam-no, atribuem-lhe todos os males dos dias que correm. O controlo das mentes, a estupidificação das pessoas, a transformação das crianças, para citar apenas alguns dos argumentos mais usados. Estes mesmos que ainda acreditam que o homem só foi feliz na idade da pedra lascada são os que desencadeiam, como um acto religioso ‘A semana sem televisão’. Não sei a quem aproveita esta campanha. Não vêem televisão, vá de retro, como não comem carne vermelha à sexta-feira, nem gostam de automóveis, só encontram virtudes no campo e abominam a cidade, odeiam rock e acham os passeios lunares manipulação televisiva. Enfim, cabeças formatadas sabe-se lá por quem e de que maneira.
Pois é exactamente para este extracto que perde o seu tempo a tentar mobilizar pessoas para não cometerem o pecado de olhar para o televisor que é preciso recomendar a leitura do livro de Steven Johnson, ‘Tudo o que é mau faz bem’. Steven Johnson, apesar de ser considerado uma das 50 personalidades mundiais mais influentes no universo da internet, é um intelectual que gosta de ler livros e tem lugar cativo nos mais reputados magazines e jornais de língua inglesa como o ‘New Yorker’ ou o ‘New York Times’ ou o ‘The Wall Street Journal’.
É professor na New York University, tendo-se doutorado em Semiótica e Literatura Inglesa em duas importantes universidades americanas. Pois este senhor, que tem passado uma boa parte da sua vida a pesquisar e a estudar televisão e toda a tecnologia digital, vem dizer que a TV, os jogos de vídeo e a internet nos estão a tornar mais inteligentes.
Diz Steven Johnson que o coeficiente de inteligência das novas gerações digitais não parou de aumentar nos últimos 30 anos e, sacrilégio, afirma que o enredo da série ‘Sopranos’ é tão intelectualmente exigente como a leitura de um livro. Diz mais: as longas horas passadas em frente ao computador a jogar, mesmo jogos violentos como o ‘Grand Theft’, tornam-nos mais inteligentes e que estas formas de entretenimento são na verdade estimulantes exercícios cognitivos.
Na semana sem televisão, a leitura adequada é mesmo ‘Tudo o que é mau faz bem’ de Steven Johnson.
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