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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Outubro de 2012 às 01:00

No primeiro episódio, um casal vive o antes, o nascimento e os primeiros dias da família a três: tema vulgar, mas muitíssimo diferente no tratamento. A equipa entrou mesmo no quotidiano dos protagonistas, evitando a perturbação causada pela câmara: o casal abre-se com veracidade inesperada e não num televisivamente correcto.

Os próximos Momentos de Mudança chocam pela normalidade do que para a maioria não o é. Os últimos meses de vida duma pequena fábrica de vestuário em Aveiro, vista através do seu proprietário, incluem momentos extraordinários e exemplificam o destino dum povo: o empresário, que ganhava 750 euros, responsabilizando--se por não ter reconvertido a fábrica, a vida dura de operárias suaves, o fim anunciado. O ex-fabricante emigrou: é hoje empregado num café em Hamburgo, Alemanha, longe da família.

O terceiro programa vive a vida dum casal homossexual até ao casamento e à viagem de núpcias, a Fátima, no 13 de Maio. Dançarinos num rancho folclórico, um trabalha numa fábrica, o outro numa estação de serviço; vivem numa casa modesta, em cujo terraço fazem a boda com famílias e amigos. No quarto programa, já depois do opróbrio dos primeiros anos, uma família de três numa aldeia alentejana, todos infectados com o HIV, vive agora em sossego. A tecnologia ajuda a concretizar um audiovisual do real que não se arvora em dar a vê-lo, mas prefere colocar o problema do real, entrar tanto quanto possível na vida, no pensamento e anseios das pessoas. As novas câmaras e a possibilidade de captar ao vivo as palavras das pessoas em movimento em casa e na rua, associadas à intrusão mínima da equipa e habituação dos protagonistas à sua presença, tudo se conjuga para conhecermos à distância, mas perto deles, a vida dos protagonistas. A ausência da voz off jornalística acentua a convivência com o real.

Com outros acessórios, que permitem imagens sem tremuras e movimentos de câmara, e com o recurso a formas visuais do cinema, chega-se a um carácter cinematográfico invulgar na TV. Daí a minha hesitação entre chamar a esta série reportagem ou documentário. Não é nem uma coisa, mas um híbrido, como só a televisão sabe criar.


A série de 12 programas demorou um ano a fazer: um luxo em televisão, que a SIC permitiu à equipa. Só com tempo para reflexão, preparação, trabalho de campo e montagem se pode chegar a trabalhos com este, que, no género, é de qualidade mundial.

A VER VAMOS

O GOVERNO SOMBRA REVELADO À LUZ DOS HOLOFOTES DA TV

Juntando a versão TV ao original na TSF, o programa Governo Sombra (TVI 24) revela uma funda diferença entre os media. O jogo de conversa distribuído por C. Vaz Marques aos três "ministros" torna-se um teatrinho. O que ao ouvido apenas contenta, passa a exibir-se nos movimentos e expressões dos quatro. A espontaneidade, que a rádio aparenta, desaparece com a percepção pelo espectador das combinações prévias. R. Araújo Pereira sobressai por ser humorista num programa de humor, a que soma cultura, inteligência e graça (caso único em Portugal); o humor subtil e intelectual de Pedro Mexia submerge na audiovisualidade; e J. Miguel Tavares fica em desvantagem por não ser nem humorista nem primeiramente intelectual.

JÁ AGORA

MARGARIDA MARANTE (1959-2012)

Deixou marca como entrevistadora numa nova era da TV portuguesa, aliando à beleza, agora quase exigida às apresentadoras, o trabalho de preparação e a ousadia necessária na pergunta, raros à época. Depois, sofreu (in)voluntariamente um destino trágico dos tempos modernos, caindo nos jogos de poder e de sedução entre as elites de poder mediático, político e económico.

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