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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Janeiro de 2006 às 00:00
Era difícil dizer que não ao embaixador Tahery, um amigo de Portugal e um intelectual de ideias arejadas. Por outro lado, entre os organizadores estava o Centro de Estudos Estratégicos da Presidência, chefiado então pelo sofisticado professor Mohamed Tajik. Vários painéis concentravam-se na ideia de “uso pacífico do átomo”. Havia um consenso apreciável no argumento: a antiga Pérsia precisava de uma nova energia de desenvolvimento, a aplicar na agricultura, na indústria, na medicina, na infra-estrutura das cidades, nos transportes, nos serviços.
PORQUÊ? Os mais superficiais, ou mais agitados, perguntavam: para que é que um produtor de petróleo precisa do nuclear?
“Precisamente por isso”, era a resposta invariável: haverá um dia, aliás determinado (face ao que se conhece de níveis de extracção e reservas), em que o ouro negro acaba. O uso do átomo aparece assim, à primeira vista, como o projecto mais ambicioso do país, e também como o sonho mais generoso para as futuras gerações.
Mas se compulsarmos os pontos de vista dos vários especialistas, decisores e órgãos de poder em Teerão, do painel dos Guardas à Presidência, do Majlis (o parlamento) ao Conselho Nacional de Segurança, do Comité da Expediência às forças armadas e serviços de informações, verificamos que, para além do óbvio, há mais história.
Apesar de Mahmoud Ahmadinejad, o actual presidente “fundamentalista”, segundo uns, ou “populista”, para outros (os rótulos são sempre mais simples que o conteúdo), ter insistido, anteontem, no espectro do fim da energia fóssil, outras vozes sugerem que o problema é sobretudo de “dignidade nacional”, e não de mero cálculo económico-social.
Islâmico, o Irão não é árabe. Apesar de se poder situar no conceito alargado de “Médio Oriente”, o ex-império do Xá tem interesses mais vastos. O seu tabuleiro estratégico abrange relações privilegiadas com a Rússia e a China, o Sudão e o Paquistão, a União Europeia (UE) e actores selectos (mais ou menos credíveis) da América Latina.
E há Israel: várias vozes securitárias ruminam que, enquanto houver “arsenal nuclear secreto” em Telavive, e a “não central de Dimona”, haverá Natanz, na velha Pérsia, e o “recurso legítimo”, ao menos “teórico e defensivo”, a um dissuasor atómico iraniano.
PROJECTOS. Talvez por isso, em estudo recente da Universidade do Exército dos EUA, intitulado ‘Estar Preparado para um Irão Nuclear’, Harry Sokolski e Pat Clawson proponham um projecto ambicioso: um grande acordo para desnuclearizar Israel, colocando-a sob a protecção e garantia do “guarda-chuva” russo-americano.
Mas se olharmos para declarações de Ali Larijani, Ahmed Tavakkoli, ou do próprio ex-futuro “moderado” Akbar Rafsanjani, ou ainda do supremo líder Khamenei, é duvidoso que tal concessão maior travasse o actual comboio do átomo.
Esse é que é o problema, sobretudo se as carruagens são opacas, e não se sabe onde fica a estação.
BILHETE DE IDENTIDADE. Noutras paragens, o chanceler de Blair (e seu putativo sucessor), Gordon Brown, falou à sociedade Fabiana, e teceu a sua utopia: é preciso ser “patriota sem vergonha”, celebrar a “Inglesidade” (perdoem o neologismo), trazer os sindicalistas ao respeito pela bandeira, criar um dia nacional (para lá do aniversário da Rainha), e retirar aos “extremistas” o valor da unidade.
Claro que a doutrina Browniana é uma cartilha cívica de “inclusão”. Mas consiste, para todos os efeitos, na proclamação de um novo nacionalismo.
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