UM AMIGO NA CADEIA

UM AMIGO NA CADEIA

Acabo de aprender a diferença entre amizade muito sólida e amizade íntima.
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11.07.04
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Quem me ensinou foi o Engenheiro Sócrates, em entrevista dada ao 'Correio da Manhã'.
Ele foi um dos membros mais dinâmicos e competentes do governo de Guterres. É actualmente um deputado muito interventivo e analista político de excepção.
No Ambiente, lutou firmemente pelos seus ideais. Preservou a zona costeira e, em particular, as praias. Já como ministro, tendo a seu cargo o Desporto, fomentou a prática, indo muito para além do espectáculo. É a ele que devemos a realização do Euro'2004.
Precisamente porque José Sócrates é um homem de acção, fiquei um pouco surpreendido com estes preciosismos linguísticos. Aliás, em nada se comparam às reflexões verdadeiramente significativas do filósofo grego seu homónimo.
Ora o que é que Sócrates diz sobre Carlos Cruz?
Refere que estabeleceu uma relação próxima com o comunicador, com Miranda Calha e com Gilberto Madaíl: criou "uma amizade muito sólida com os três. Reuníamos quase todos os dias ao pequeno-almoço e passámos juntos por momentos complicados e isso uniu-nos".
Mas quando lhe perguntam se tem falado com Carlos Cruz, responde logo: "não, não. Aconteceu-lhe aquilo, depois ele estava preso e eu não faço parte do seu grupo íntimo de amigos".
Portanto, a distinção entre amizade muito sólida e íntima faz toda a diferença. É o que permite decidir entre contactar ou não um preso.
Visitar um detido não significa que se concorde com o crime de que ele é acusado ou pelo qual cumpre pena. Tão-pouco quer dizer que se acredita na inocência que eventualmente ele proclame.
Quando Costa Freire foi preso, este já não desempenhava as funções de secretário de Estado. Leonor Beleza era ministra da Saúde. Não deixou de visitar na cadeia aquele que a servira.
O Presidente Mário Soares avistou-se com Bettino Craxi, foragido à justiça italiana.
Contudo, muitos dos detidos não têm visitas.
Há tempos, tive um caso muito complicado.
Um homem foi condenado a dez anos de prisão, por assaltos.
A esposa, na sua infinita solidão, encontrou novo companheiro.
Já não ia a Vale de Judeus visitar o marido. Os dois filhos, com oito e dez anos, deixaram de ver o pai.
Teve de se instaurar uma regulação do poder paternal. Os progenitores chegaram a um acordo. A mãe levaria os filhos à cadeia no último domingo de cada mês. O diabo é que nunca o fez. Dizia que andava a receber ameaças de morte e que estava de relações cortadas com o marido.
Eu não consegui descobrir uma instituição que levasse as crianças a visitar o pai.
Por sugestão da progenitora dos meninos, convoquei a mãe do preso. A ideia era que ela levasse os netos consigo, para que se proporcionasse o encontro.
Perguntei à mãe do detido se costumava ir visitar o filho. Disse-me que ia lá raramente, porque o transporte saía muito caro. Gastava uns 15 euros em gasóleo.
A mãe das crianças dispunha-se a suportar a despesa. A sogra e avó dos menores pura e simplesmente recusou colaborar. Não estava para isso. uma asneira, enquanto discursa.
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