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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Setembro de 2003 às 00:00
O Congresso da Justiça, proposto por José Miguel Júdice, está cada vez mais difícil. Na forja perfila-se novo adiamento e o futuro imediato não traz perspectivas de união entre os diversos operadores judiciários.
Também aqui, e não só na vertente política (veja-se como o PSD voltou a ultrapassar o PS e Durão ganha terreno a Ferro), a Casa Pia joga um papel central. É expectável, como se tem podido perceber nos debates televisivos, o crescimento da crispação entre os advogados, nomeadamente de alguns ligados aos grandes escritórios de advogados que apoiaram Júdice na corrida à presidência da Ordem, e os juízes.
A desconfiança está instalada, o desconforto também. Será preciso, por isso, algum tempo para que todos possam sentar-se à mesma mesa a debater problemas comuns, como, por exemplo, a morosidade da Justiça – que agora, de repente, os advogados da Defesa do mediático caso provavelmente até já acham rápida demais…
O juiz Rui Teixeira vai manter-se à frente do processo, por decisão unânime do Tribunal da Relação de Lisboa.
Indeferido liminarmente, o recurso que questionou a independência do juiz mais popular do País cumpriu a função de reforçar a imagem do magistrado e a de diminuir a do sorridente grupo de advogados que a patrocinava.
Ao cidadão normal tudo pareceu uma manobra para ganhar tempo e a Defesa admite reincidir na táctica. Um erro, porque este processo também se julga na opinião pública e esta começa a pensar que os advogados, dos cidadãos privados de liberdade no âmbito do processo, admitem ser mais fácil apostar em falhas processuais do que provar a inocência dos clientes. E isto tem um preço.
Acertar as contas do défice pode ser uma habilidade orçamental de Manuela Ferreira Leite, para além de um assunto de Estado. Todos compreendemos o debate político sobre o tema porque economia e finanças não são a mesma coisa e é positivo que se debatam as diversas vias do nosso desenvolvimento, no presente e no futuro.
Não é a mesma coisa quando estão em causa números relativos a vidas humanas.
A ida do ministro Luís Filipe Pereira ao Parlamento, esta semana, teve, por isso, um carácter estranho. Até agora pensava-se que a vaga de calor era responsável por cerca de 1 500 mortes – o ministro reduziu para quatro! Porventura, nem os números inicialmente dados pelos Instituto Ricardo Jorge, nem aqueles agora citados por Luís Filipe Pereira estarão correctos. Mas é lamentável que isso aconteça. É fazer baixa política sobre incompetência.
Além da Saúde, também a colocação dos professores ajudou Durão Barroso a regressar ao Portugal real, depois dos elogios pelo discurso da ‘rentrée’. O primeiro-ministro tinha defendido a entrada dos computadores na escola e eis que a colocação dos professores fica marcada pela falência do ‘site’ do Ministério, esmagado pela expectativa de milhares de candidatos a um emprego. Até a informação ‘sms’ se recusou a colaborar, como se as novas tecnologias andassem divorciadas do ensino que temos. E tomara que a polémica nas escolas se resumisse ao fracasso da informação nesta tramitação burocrática. Tomara.
Marcelo Rebelo de Sousa retirou-se da corrida presidencial, pelo menos por agora, recomendando António Guterres à esquerda e Cavaco e Silva à direita.
Santana Lopes terá sorrido e aguentou-se nas reacções, ele que era o principal alvo da análise – mas a ala esquerda do PS não foi capaz de tanta contenção e, com Manuel Alegre à cabeça, tratou de marcar a distância a Guterres. Se ele é elogiado pela Direita, avisa, os camaradas que se cuidem! José Sócrates acha precisamente o contrário. É a prova de que o PS, ainda hoje, não deixou de ser uma vasta federação de ideologias.
Mais tarde ou mais cedo, Ferro Rodrigues, que ressuscitou este revivalismo vermelho, de cravo na lapela, vai ter de enfrentar o PS da rosa. É só esperar um pouco pelo momento adequado.
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