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Correio da Manhã

Opinião
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23 de Maio de 2007 às 09:00
Para que cada um de Vós se torne num de Nós!” Desta forma, com a merecida ênfase, no passado domingo, o primeiro-ministro, eng. José Sócrates, dava as boas-vindas a 320 novos portugueses.
No ambiente solene e carregado de História do Mosteiro dos Jerónimos, este gesto ganhou um particular significado. Nunca na história recente dos processos de naturalização se atribuiu ao momento da concessão da nacionalidade portuguesa qualquer solenidade. Não passava de um processo administrativo de papéis trocados e de custas pagas. Desta vez, marcando a nova Lei da Nacionalidade, foi diferente. E deveria ser sempre assim.
Tornar-se português não é uma banalidade. Exige uma decisão consciente e livre de quem quer abraçar um futuro em comum. Ao contrário de muitos de nós, que independentemente da nossa vontade nascemos portugueses, para estes novos cidadãos tal opção muda significativamente a sua vida. Aderem a uma comunidade, com a qual partilharão não só a língua e cultura, mas sobretudo um destino.
Por isso, tal momento deve ser especial. Carregado de esperança e de simbolismo, esse gesto precisa de ser celebrado.
Sem temer qualquer leitura enviesada, fazê-lo nos Jerónimos teve todo o sentido. Símbolo de um Portugal aberto ao Mundo, capaz de se encontrar com outros povos e outras culturas, é o espaço nobre de uma nação cosmopolita. Portugal visto dali é sempre um movimento de encontro com o Mundo.
Até na história da construção dos Jerónimos isso foi evidente. O seu primeiro arquitecto, Diogo de Boitaca – de quem se sabe pouco mas que seria provavelmente de origem francesa – tornou-se ‘num de nós’ e evidencia esta marca de interculturalidade. Sempre foi isto que nos fez fortes. É de muitos ‘outros’ que aos nossos antepassados se foram juntando que se fez o sucesso desta Nação com oito séculos de História. Ao invés, sempre que nos fechámos, definhámos e tornámo-nos menores.
A cerimónia incluiu também a entrega a cada novo português de outras marcas simbólicas de grande alcance: a Constituição portuguesa e a Bandeira nacional. Quer uma quer outra fala-nos não só de um património herdado mas sobretudo de um futuro partilhado, que somos desafiados a construir juntos. Sob a mesma Constituição e a mesma Bandeira.
Também para muitas das crianças que aqui nasceram, filhas de pais imigrantes, esta oportunidade de fazer parte de pleno direito de um colectivo nacional é vital. Essa foi uma das principais aquisições da nova Lei da Nacionalidade, tornando portugueses ‘de direito’ muitos que já eram portugueses ‘de facto’. Aqui nasceram, aqui sempre viveram. Mas muitos deles continuavam estrangeiros por estreiteza de vistas da antiga lei. Agora mudou. E é bom que desde cedo não só lhes saibamos – solenemente – dar as boas-vindas como os envolvamos, como qualquer um de nós, na construção deste País que se vai tornando maior e melhor.
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