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Correio da Manhã

Opinião
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11 de Setembro de 2003 às 00:00
A guerra israelo-palestiniana cresceu em violência e o mundo assiste à edificação de um muro mais vergonhoso do que o de Berlim, verdadeiro monumento à intolerância e ao ódio.
Vistas as coisas assim, à distância de dois anos assinalados hoje, o crime de 11 de Setembro não induziu qualquer mudança positiva na geopolítica mundial e do Médio Oriente em particular.
A cruzada contra o terrorismo inspirada pela causa palestiniana extremou posições e até dividiu o Ocidente limitando-se a produzir dezenas de milhares de mortos sem que algum deles fosse um dos dois mais proclamados chefes do terror: Bin Laden está vivo segundo as imagens de ontem da Al-Jazeera e Saddam Hussein foge diariamente aos caçadores de recompensas e ao exército norte-americano.
Bush não falhou a prometida vingança, mas revela-se incapaz de pressionar a paz.
E pelo meio a hipocrisia serviu-se em vários palcos: em França, na Alemanha, na Rússia, na Arábia Saudita e também na Líbia com a reabilitação, por parte do mundo ocidental, com os Estados Unidos à cabeça, de um terrorista do calibre de Kadhafi.
O dinheiro sempre paga tudo e, afinal, o terrorismo de Estado é questão de umas indemnizações depositadas em cash num qualquer banco da Suíça. Já foi assim com o regime taliban ou o próprio Saddam.
Há ainda quem consiga ver nesta comédia humana, jogada nos salões dos grandes palácios, os bons todos de um lado e os maus reunidos do outro.
A morte de cerca de três mil pessoas que não conseguiram escapar à derrocada das duas torres gémeas parece não ter inspirado mais nenhum outro sentimento do que o da primária vingança – e o homem que na foto olha as ruínas do que naquele dia restou do World Trade Center espelha bem a impotência de todos face à destruição.
O Afeganistão e o Iraque tiveram o contraponto de Bali, agora acabado de julgar e, sobretudo, o ataque à delegação das Nações Unidas em Bagdad demonstrou quão cega e violenta se tornou a guerra.
As interrogações são, por isso, muitas.
Afinal, o que se passou nestes dois anos? Que resultados teve o combate ao terrorismo islâmico (que está longe de ser a única ameaça ao mundo civilizado)? Que fez verdadeiramente Bush para pressionar Israel a acreditar na Paz? O que pensam da Vida todos aqueles que empurram os jovens palestinianos para o martírio? Quais os passos concretos dados pelos países ricos para combater a pobreza e todos os tipos de exclusão, ao fim e ao cabo a verdadeira razão de ser do ódio? Será que a intransigência e militarismo de Sharon é mais cruel que a hipocrisia de Arafat? O que nos reserva o futuro próximo face à ameaça terrorista crescente e à falta de soluções dos Estados Unidos para os cenários pós-guerra agravados com a posição defensiva de Chirac, Putin e Schroeder?
Em Israel, ou na Palestina, como se preferir, joga-se um desafio à segurança mundial e ao Homem.
Para além do petróleo, da água, dos conflitos étnicos e das divisões tribais e religiosas, o Médio Oriente significa hoje um teste às verdadeiras qualidades humanas dos políticos que comandam os países mais poderosos do mundo.
Bush, condicionado pelas eleições a um ano, já reconheceu a incapacidade dos Estados Unidos para liderarem sozinhos, como esperavam, a reconstrução do Iraque. Bem depressa, mais do que esperaria, Washington (re)descobriu a importância da bandeira das Nações Unidas. Afinal, Kofi Annan não comanda uma organização completamente ultrapassada.
A necessidade da Paz aconselha consensos e atitudes moderadas, a começar agora na resposta de Paris, Moscovo e Bona.
Ao terror deve responder-se com uma firmeza despida de medo, mas com uma grandeza que permita sempre o ansiado regresso da Paz.
Se não servirem para gerar alguma humildade e humanidade em quem manda no mundo, as mortes do 11 de Setembro, como as outras, muitas, que já se lhes seguiram, não terão mesmo nenhum significado.
Hoje, valerá a pena pensarmos todos um pouco nisso, se é que não queremos viver num mundo permanentemente em guerra.
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