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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Julho de 2004 às 00:00
O Euro’2004 foi um evento sempre mal apreciado por uma parte significativa da intelectualidade nacional.
Há cerca de cinco anos, quando José Sócrates, Gilberto Madaíl, Miranda Calha e Carlos Cruz ganharam a organização deste evento que hoje termina, muita gente não o saudou como saudara a Expo’98 e muito menos deu qualquer importância à modernização das estruturas da indústria do futebol em Portugal. Antes pelo contrário, imediatamente começou o choradinho do País pobre que ia delapidar dinheiro.
Hoje, por mérito de muita gente, os custos foram contidos dentro de limites perfeitamente aceitáveis, a competição constituiu um êxito na promoção da imagem de Portugal no mundo, teve efeitos na economia de que ouviremos falar devidamente nos próximos tempos, acelerou obras importantes e, sobretudo, colocou nas ruas um País orgulhoso das suas raízes, da sua cultura, sensível aos símbolos da sua História e que estava a precisar de uma cura de alegria.
Alguns portugueses entenderão ridículo que tudo isto se tenha construído a partir de um jogo de futebol, um simples e alienante jogo de futebol! Não precisam de estar preocupados. A recente crise política espoletada com a aceitação de Durão Barroso do convite para a presidência da Comissão Europeia evidenciou uma sociedade adulta, capaz de vibrar apaixonadamente com o jogo e, ao mesmo tempo, preocupar-se com o Governo e estabilidade do País; capaz de se divertir com aquilo que é efémero, lúdico e transitório e não se desfocar da construção do futuro que considera melhor. Portugal revelou uma faceta moderna, organizou uma prova que foi um êxito reconhecido por todos e vai ficar um País melhor, mais confiante e desinibido.
Estamos a poucas horas do fim desta campanha alegre. Logo, ao final do dia, o Estádio da Luz vai ser o centro das atenções do País e o epílogo da grande festa do Euro’2004. A representar Portugal estarão 23 atletas que vão viver o maior desafio profissional das suas carreiras. A maioria dos seus compatriotas, os que gostam de futebol e muitos outros que nunca no jogo tinham reparado, vão estar com eles, respirar com eles, sofrer com eles – e gostariam, no final, de divertir-se tanto quanto eles pelas ruas de um mundo global, de Lisboa a Timor.
Nunca nenhuma outra equipa portuguesa esteve perante um desafio tão empolgante ou contou com um apoio tão unânime; mas não há, no entanto, quem lhe exija desta vez a vitória. Basta-nos saber que os jogadores vão querer estar à altura do momento porque ele é a todos os títulos irrepetível e vale o sacrifício de uma luta dura, de uma concentração absoluta e de um talento que se exprima em submissão ao colectivo.
Este é um jogo em que a táctica e a estratégia têm de estar ao serviço da vontade. Poucas situações poderiam ser mais motivantes para um jogador de futebol.
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