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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Outubro de 2005 às 17:00
Portugal é um país estranho. Acontecem coisas que não se compreendem por mais que nos esforcemos. Há anos que no segredo dos gabinetes ministeriais se desenvolve uma estúpida polémica acerca da colecção de Arte Contemporânea de Joe Berardo. Todos sabem que esta é uma das maiores e mais importantes colecções de pintura moderna existente no Mundo.
São cerca de quatro mil quadros dos mais representativos das principais escolas da pintura moderna. Estão lá os nomes mais marcantes dessa pintura e um bom número dos melhores quadros desses pintores.
Joe Berardo fez uma colecção única, vale hoje muitos biliões de euros e constitui um património cultural de raro valor. A aposta de Joe Berardo é Portugal. Este homem que fez fortuna na África do Sul e que tem capital em empresas petrolíferas, cimenteiras e electrónicas em várias partes do Mundo, escolheu Portugal como centro estratégico de desenvolvimento dos seus negócios. Em Portugal tem feito avançar muitas áreas da economia portuguesa e hoje é já uma referência na produção e exportação de vinho. Quando não viaja, passa o seu tempo na Madeira e em Lisboa. Apostou, como bom português que é, na instalação da sua invulgar colecção de pintura em Lisboa, capital de um País que tem como principal riqueza o turismo.
Pois bem, ano após ano, governo após governo, Berardo tem procurado sensibilizar as autoridades portuguesas para a importância de se encontrar um lugar digno para receber toda a sua colecção que seria, só por si, motivo para a visita de muitos turistas. De acordo com o que ouvi Joe Berardo dizer na Embaixada de França, onde foi condecorado pelo governo francês, todos os governantes lhe disseram que acarinhavam a ideia, era uma prioridade resolver o assunto, mas a verdade é que ninguém até hoje lhe indicou uma solução.
O problema arrasta-se penosamente, ano após ano, como se fosse uma coisa banal ter uma pequena parte dos quadros no Museu de Sintra e os outros guardados num armazém. Portugal fica sempre de fora do circuito das grandes exposições de pintura que circulam na Europa. Ninguém até hoje conseguiu inverter esse ciclo e confesso que tive uma grande esperança de que a eventual eleição de Carrilho mudasse este estado de coisas.
Lisboa e Portugal não têm de ser só procurados pelos turistas ‘pé descalço’. É preciso atrair elites, turistas com poder de compra. Sabe-se que isso passa hoje pela valorização do património cultural. Como se pode ficar insensível e parado quando se tem na mão uma das maiores colecções de arte do Mundo? Não há em Lisboa nenhum sítio, com tantos edifícios de grande beleza e dignidade, para acolher esta exposição permanente? A França quer a exposição de Berardo em Paris. Nenhum país da Europa demoraria mais do que um mês para decidir acolher este valioso acervo.
Berardo, que é também teimoso, ainda luta pela manutenção de exposição em Lisboa e tem sugerido lugares diferentes. Entre eles o Pavilhão de Portugal na Expo, inteiramente desocupado. Mas obviamente que a paciência tem limites e a rejeição, se não mesmo horror ou hostilização, é intragável. Que grande tristeza se Portugal vê sair para outro país esta fantástica colecção.
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