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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Outubro de 2004 às 00:00
São um bocadinho tontos os ataques generalizados ao Governo “de direita”. Eu percebo que o Governo seja uma miséria: não percebo é que seja “de direita”.
Corrijam-me se estiver enganado, mas não acho que a nomeação desenfreada de amigalhaços se enquadre no que se convencionou designar por “direita”. Tal como a incapacidade em distribuir uns docentes. Ou a comovente vontade de calar os críticos. Ou, sobretudo, a avalanche permanente de promessas, malentendidos, desmandos e “esclarecimentos”. Também por culpa de certas “direitas”, a concepção que se faz da “direita” em Portugal já tem sido suficientemente aviltada para que o abuso siga impune.
Sem má-fé, nada justifica que se adjective ideologicamente o Governo em funções. Na espécie de Executivo que o dr. Sampaio ajudou o dr. Santana a inventar, apenas se distinguem duas tendências: de um lado, o “assistencialismo” do dr. Bagão Félix (de resto, retórica à parte, não muito longe do de Guterres); do outro, um pagode indecifrável a que seria abusivo chamar “programa” e absurdo chamar “política”.
Excluindo, portanto, o dr. Félix, o Governo (que o rigor mandaria servir entre aspas) resume-se a um conjunto de sujeitos. Um vasto conjunto de sujeitos que, por caprichos da sorte ou circunstâncias do país, deram subitamente por si ministros ou secretários de Estado. Uns gostam; os outros fingem gostar. Que se tenha notado, nenhum possui uma ideia nem a sombra de uma convicção. Andam por aí, coitados, e, se dispõem de oportunidade, dizem coisas, que duas horas depois desaparecem sem deixar rasto. Ninguém os conhece, ninguém os quer conhecer.
Acima deles, contra todas as evidências, paira o primeiro-ministro. Dia sim, dia sim, o dr. Santana surge nas televisões dizendo mais coisas, com voz pausada e o pensamento em sossego. Na cabeça dele, o dr. Santana julga “dirigir-se” ao coração do português comum. E, de facto, às vezes o português comum contempla, genericamente horrorizado, o exercício. Em seguida desliga o televisor e regressa à vidinha, convencido de que, na falta de Abril, se cumpriu, pelo menos, o sonho que nem o PREC ousou: um país inteiro em auto-gestão.
Se me explicassem onde é que está a “direita” nisto, excepto no interesse da oposição em identificar a presente catástrofe com uma linha política, eu agradecia. Este Governo não é de direita: este Governo é de mentira, e desde o início. Apetecia-me acrescentar que, no seu insólito desconchavo, o Governo chega a parecer de esquerda. Mas não quero ser ofensivo.
albertog@netcabo.pt
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