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Correio da Manhã

Opinião
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19 de Novembro de 2005 às 00:00
Missionário, catequista, soldado de Cristo, estadista, diplomata, político, estrategista e génio literário tudo isto foi Vieira. E tudo isto aparece em pinceladas vivas, convincentes e criativas da autoria de Amaldo Niskier, escritor consagrado pela Academia Brasileira de Letras e secretário de Cultura do Estado do Rio de Janeiro.
Guardadas as proporções entre Portugal e França, o padre Vieira teria sido um homem da força e da magnitude de Richelieu e de Mazarino, Cardeais que no seu tempo mandaram na França mais do que os Reis. Ocupou quase por inteiro o século XVII – nasceu em 1608 e faleceu em 1697, uma vida longa como se vê, 89 anos, dos quais 52 passados no Brasil.
Um dos aspectos mais impressionantes e sensíveis da actuação de Vieira em Portugal, quanto aos judeus, é que, três anos depois de ter chegado à metrópole, foi o arquitecto, com data de 3 de Julho de 1643, da proposta feita a El-rei D. João IV em que apresentava o miserável estado do Reino e a necessidade de admitir mercadores judeus portugueses que andavam por diversos países da Europa, expulsos de Portugal porque eram judeus.
O documento não trazia o seu nome, mas a autoria do notável jesuíta é inegável. Portugal dessangrava-se na sua luta por manter a independência proclamada contra a Espanha, em 1640, já então através de uma guerra que veio a durar 28 anos. A paz entre as duas nações ibéricas só foi finalmente assinada em 13 de Fevereiro de 1668. Também houve o problema da invasão pela Holanda do Nordeste brasileiro, luta que requeria despesas bélicas que seriam custeadas pelos judeus portugueses.
Pela proposta feita ao Rei D. João IV, viriam para Portugal mercadores judeus de origem portuguesa – da Flandres, da França, da Itália, da Alemanha, de Veneza, das Índias Ocidentais e de outras procedências com o que o Reino de Portugal se fazia poderoso e veria crescer os direitos das alfândegas de forma que bastassem às campanhas militares.
Dizia o documento, em certa altura, que o Sumo Pontífice não só admitia nos Estados da Igreja o que nós chamamos cristãos-novos (não se fazia em Itália diferença entre cristãos-velhos e cristãos-novos). Por que não deveria admitir Portugal cristãos baptizados à parte a suspeita de que não fossem verdadeiros cristãos?
Do púlpito da Igreja de São Roque, em Lisboa, o Padre Vieira reforçou os argumentos da proposta. Fácil é ver que Vieira logo se indisporia com o Santo Ofício – a Inquisição – que ele materializava sob o aspecto de um grande monstro, um polvo gigantesco, como o pintou no sermão aos peixes.
Com a morte de D. João IV, em 1656, Vieira perdeu o seu grande patrono. Em 1 de Outubro de 1665, com 53 anos, foi preso pela Inquisição num cubículo em Coimbra, onde ficou 2 anos e 3 meses praticamente incomunicável. Em 1668, Vieira era oficialmente perdoado e obteve permissão para viajar a Roma.
O Papa Clemente X, que o recebeu, assinou um Breve, em 1675, isentando-o para sempre da jurisdição dos inquisidores de Portugal, sujeitando-o, única e exclusivamente, à Congregação do Santo Ofício de Roma. Pelo mesmo acto, o Papa absolveu-o de quaisquer proibições, censuras ou penas eclesiásticas.
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