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Correio da Manhã

Opinião
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4 de Outubro de 2006 às 17:00
Há quatro anos, Lula ganhou e, cá como lá, a felicidade andava à solta. A felicidade e os delírios. A acreditar nos noticiários, que não mentem, era a primeira vez que uma democracia elegia um verdadeiro homem do povo. E era a votação mais expressiva da história. Por acaso, Lincoln nasceu na famosa barraca de madeira. Por acaso, em 1984 Reagan teve uma votação superior (entretanto, George W. Bush, imagine-se, também). Que importava? É do conhecimento público que os EUA não são democráticos e, de qualquer modo, até pretextos inventados serviam para aclamar a coroação de Lula da Silva, o Bom.
Por isso, foi com melancolia que acompanhei as eleições de domingo. Numa rádio nacional, os ‘jornalistas’ nacionais não disfarçavam o desgosto pela segunda volta. Para cúmulo, um sacrifício a dividir com um candidato obscuro, de nome impronunciável e, claro, representante dos ‘ricos’. A esquerda, que confiou vasta esperança nesse operário sem dedo nem vergonha, não estranhou que os ‘ricos’ ultrapassem os 40 por cento da população brasileira. O Brasil é o menos: acima da realidade, paira o ‘projecto’ a que a realidade, queira ou não, se deverá sujeitar. E o ‘projecto’, ou o ‘sonho’, depende da reeleição de Lula.
Depende? Alguma esquerda, eu sei, está desiludida com o homem. Não porque a corrupção durante o mandato de Lula tenha cilindrado os elevados padrões locais. Ou porque Lula alegue distracção para se distanciar da permanente fraude em que o PT transformou o exercício do poder, o que faria dele um inimputável.
Para a esquerda, o pecado de Lula é a ‘moderação’. Apesar dos esforços e do grotesco populismo, Lula não desprezou completamente as conquistas de Henrique Cardoso. Graças à sorte, a constrangimentos ou, admita-se, a uma sombra de lucidez, a economia brasileira não desabou em excesso e a política externa não constituiu a ambicionada vanguarda de resistência ao ‘imperialismo’. A esquerda, a esquerda autêntica, queria que Lula fosse um Chávez em versão alargada. Lula, mal por mal, não foi um Chávez. Donde a desilusão, que uma vitória no dia 29 só parcialmente aplacará.
Por mim, confesso relativa resignação. O Brasil é uma balbúrdia cuja solução não virá na segunda volta, seja ela de Alckmin ou do Messias. E não acho insólito um país do terceiro mundo, “emergente” ou não, permitir-se experimentar líderes de acordo com alucinações igualitárias. Espantoso é que em Portugal, alegadamente na Europa, subsista tanta gente a aguardar vinganças poéticas contra o “sistema”, o capitalismo e os EUA. Em países normais, criaturas assim depositam-se nas margens da sociedade, ou em cacifos universitários. Aqui, ocupam cargos ditos de responsabilidade e são chamados à Imprensa, onde proferem palavras como “revolucionário”, “fracturante” e “Morales” sem se rir. As expectativas da esquerda face ao atraso brasileiro dizem muito da natureza da esquerda. E, no caso português, dizem ainda mais sobre o nosso atraso.
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