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Correio da Manhã

Opinião
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5 de Novembro de 2006 às 17:00
Foi, ontem, a notícia do dia: os repórteres fotográficos polacos estão proibidos de fotografar de perfil o seu primeiro-ministro, Jaroslaw Kaczynski. Tivesse sido ele faraó e não tinha ficado para a História. É sabido que os guardadores de imagem do Antigo Egipto só fotografavam de lado. Como é polaco e moderno, Jaroslaw Kaczynski quer ficar como político de uma só posição, e frontal, se faz favor!
À pala deste polaco pus-me a magicar à volta da expressão ‘ter perfil’, hoje tão usada. “Fulano tem perfil para o lugar?”, diz-se para ver se alguém encaixa com cargos tão diversos como Presidente da República ou treinador de futebol. Por que se quer à viva força que alguém seja visto de lado em tarefas de responsabilidade? O normal, acho eu, seria dizer: “Beltrano tem face para PR!” Uma face traz olhos, que podem ser firmes, pusilânimes ou adormecidos, e lábios, que podem ser desdenhosos, viciosos ou sorridentes.
Enfim, uma face fala. É verdade que pode mentir, mas dá-nos fartos sinais de leitura. Num perfil, dos olhos vê-se as pestanas. Que nos podem dizer umas pestanas em relação à capacidade de um homem declarar o estado de sítio ou indicar quem marca o penálti? (Quer dizer, se elas forem muito tratadas ou manifestamente postiças talvez indiquem que um PR com elas assim nunca venha declarar o estado de sítio, credo!).
Um perfil também dá o tamanho e, mais que ele, a proporção do nariz. E depois? Afonso de Albuquerque tinha o nariz grande, D. Miguel, também, e só o primeiro é digno de ser votado entre os maiores portugueses. Há um traço, admito, que talvez possa indicar alguma coisa num perfil: um queixo fugidio.
Mas mesmo este – hipoteticamente indicando um carácter fraco – pode ser camuflado nos homens (é nos homens que o queixo fugidio indicia alguma coisa da maneira de ser, nas mulheres pode estar tão-só a melhor expor um colo glorioso).
Ernest Hemingway herdou do seu pai um queixo fugidio mas passou a vida toda a tratar toureiros por tu, a matar leões e a treinar boxe em ginásios. Bastou-lhe deixar crescer a barba. Um perfil é coisa que se esconde facilmente.
Então por que razão os ‘caçadores de cabeças’ (aqueles que procuram quadros para as empresas) se preocupam tanto com o perfil? Se o perfil fosse mesmo o mais adequado para entrar em algum sítio, os com perfil de picareta, de nariz adunco, seriam privilegiados. Não tenho nada contra – quem me conhece, de perto e de lado, sabe do que falo. Mas se esse é argumento, deixem-me levá-lo mais longe: um tipo com perfil de Black & Decker, nariz em forma de broca sextavada, tem mais chances que um perfil clássico, caso ambos queiram entrar num grande banco para analista de mercado financeiro? Duvido. Sobretudo se o da broca for fazer as provas de admissão com ela a rodar.
Volto à mania do polaco Jaroslaw Kaczynski. Impedir fotos de lado é capaz de não ser grande ideia. Pode ser um quarto de caminho andado para lhe fazerem a foto que, hoje, todos os repórteres polacos querem: por trás, de quem desanda do poleiro. Está visto, este Kaczynski, para o cargo, não tem perfil. Tentamos sempre esconder o nosso lado menos favorável.
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