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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Novembro de 2004 às 01:48
Quando o dr. Sarmento assegurou vivermos “tempos fascinantes” devia estar a referir-se, por óbvia exclusão de partes, aos recordes portugueses no ‘Guinness Book’. Como a Imprensa vem anunciando, a presença nacional nesse inventário da grandeza humana tem registado sucessivos acrescentos, entre os quais o maior ‘bouquet’ de noiva, o maior cozinhado sem ajuda e a bola de golfe suspensa num taco por mais tempo. Em breve, segundo percebi, incluir-se-á no livro, perdão, no Livro, a maior salada de frutas e o maior pão.
A julgar pelo acima exposto, o Governo até se mostra generoso quando pretende indexar os futuros aumentos salariais à produtividade, conforme proposta apresentada na sexta-feira. Mas de que produtividade falamos? O problema passa pela falta de enquadramento legal das actividades que fomentam recordes. Que se saiba, a manufactura de gigantescas saladas de fruta não se encontra abrangida pelos escalões da Função Pública – ou privada, de resto –, e este estatuto marginal cria dificuldades ao reconhecimento daquilo em que os portugueses são verdadeiramente produtivos.
O Governo, note-se, não tem culpa. Em todo o universo capitalista, há a lamentável tendência para se valorizarem sistemas de trabalho padronizados (e arcaicos, esclareça-se) em detrimento da criatividade ilimitada. Assim, o mercado privilegia, por exemplo, a eficácia administrativa e o desenvolvimento de microprocessadores, mas não recompensa devidamente o equilíbrio de bolas de golfe nem a maior feijoada em cima de uma ponte.
Para cúmulo, enquanto no capitalismo selvagem a regra é a redução (de custos, de pessoal, de processos, do tamanho dos produtos), nós somos excelentes justamente no oposto, ou seja, em aumentar tudo, excepto a produtividade tradicional. Não admira que tenhamos também a maior guitarra acústica, a maior camisola, o maior canivete e o maior mural de moedas, apenas para citar casos célebres. E para quê?
Se a economia se regulasse pelos critérios do ‘Guinness Book’ em vez das parlapatices da OCDE, o relevo de Portugal no mundo seria outro. Tal como isto está, as opções não são demasiadas: ou mudam os portugueses, e se empenham a serem bons nas aborrecidas tarefas que o Japão ou a Finlândia desempenham com aborrecida eficiência; ou continuamos a trabalhar para os recordes e aguardamos que mude o mundo. Quem conhece o nosso Governo (o presente, os anteriores e os próximos) sabe que a escolha já foi tomada há muito. O povo agradece. Tempos ainda mais fascinantes virão.
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