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Correio da Manhã

Opinião
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17 de Outubro de 2003 às 00:00
1. Conhecem o "Daily Show"? É um (óptimo) programa televisivo americano, que passa na SIC Radical e cuja receita mistura entrevistas com "telejornal" satírico. Ali, embora as notícias não sejam inventadas, é ténue o vínculo com a realidade, já que esta é distorcida ou "puxada" aos limites do absurdo, normalmente com efeitos hilariantes.
Um destes dias, o actor Michael Caine foi convidado do "Daily Show" e confessou que quando, na Inglaterra, o viu pela primeira vez – por acaso logo a seguir ao noticiário da CNN –, julgou a princípio que se tratava de um espaço informativo "a sério": comparados com os delirantes factos cobertos por aquela estação, os quadros humorísticos pareceram-lhe, durante alguns minutos, bastante mais plausíveis.
"Sir" Michael não se encontra certamente a par da actualidade portuguesa. Caso estivesse, nem dez anos lhe chegariam para perceber a diferença entre o nosso quotidiano público e, digamos, os "Malucos do Riso". Nós próprios, cidadãos nacionais, temos imensa dificuldade em percebê-la. E olhem que nos esforçamos.
Esta semana, por exemplo, ainda não havíamos digerido a história da "cunha" ministerial e o baile dos bombeiros (em curso), logo tentámos desenfreadamente arranjar uma espécie de explicação racional para os acontecimentos que se sucederam à libertação do dr. Paulo Pedroso. Trabalho escusado.
Por muito que se queira, não se explica a festança que o PS organizou na Assembleia da República em honra de um deputado suspenso. Nem se explica a reviravolta na cabecinha do dr. Alegre, para quem, em quinze dias, o País saiu de uma ditadura "pior que no tempo de Salazar" e penetrou, mediante uma "nuance" na medida de coacção aplicada a um arguido, num elevado estádio de moralidade e justiça.
Também não se explica que a vistosa recepção na AR provoque um definitivo murro numa mesa parlamentar, ou que um semanário "de referência" eleve a dita mesa às alturas de manchete. Nem que um psiquiatra surja do vazio para "denunciar" duas tentativas de suicídio avulsas. Nem que o procurador-geral da República interprete as alegrias dos outros à conta de íntimos agravos.
Na mesma linha, é igualmente incompreensível que um magistrado conceda entrevistas enquanto participa numa corrida de jipes. Ou que uma dirigente socialista acredite piamente viver em 1968 e dispare insanidades compatíveis. Ou que o Chefe de Estado inclua nos seus discursos referências vagas a processos judiciais concretos. Ou que o dr. Namora se vista de branco e, não obstante, permaneça uma figura sinistra. Ou que gente "ilustre", a maioria recém-chegada das brenhas, vá às televisões e aos jornais e fale, fale, fale sem parar e sem juízo daquilo que, por elementar definição, devia ser calado.
Entretanto, numa dimensão paralela, há um Governo que assobia para o lado, preferindo fingir-se ofendido com oito páginas de publicidade gratuita na revista ‘Time’. Claro que um conhecimento tangencial de Bragança é suficiente para constatar que a reportagem sobre a "nova zona vermelha da Europa" é uma palermice pegada. Mas se por cá, com regularidade e sob os mais díspares propósitos, gente supostamente adulta e responsável transmite uma imagem de loucura, insensatez e folguedo, não se pode levar a mal que uma pobre jornalista estrangeira sofra a influência e desate a ter alucinações.
Aliás, hoje, Portugal em peso ameaça tornar-se uma profunda e inexplicável alucinação colectiva. Alguém nos belisque, por favor.
2. Em comunicado oficial, emitido ontem, o Vaticano considerou "indignas" as declarações de um tal Soares Franco, dirigente do Sporting, dado que as mesmas ofenderam "o espírito da grande maioria dos portistas, que têm por Pinto da Costa uma admiração extrema como homem, como presidente do FCP e como um verdadeiro santo que ninguém duvida que é".
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