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Correio da Manhã

Opinião
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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco Moita Flores

Um passo em frente?

(...) a redução da morte na estrada não é vitória de um governo, de uma polícia, de uma instituição. Mas uma vitória de todos.

Francisco Moita Flores 20 de Novembro de 2006 às 17:00
Neste fim-de-semana, a propósito da luta contra a sinistralidade rodoviária, soubemos números encorajadores. Pela primeira vez, de há muito tempo a esta parte, que o número de mortos/ano nas estradas portuguesas vai fechar com um número abaixo do milhar. Isto, se não correr um vento de demência no último trimestre do ano.
É importante esta vitória contra a morte. Mas uma vitória que vale o que vale, tendo presente que o número de acidentes é mais ou menos o mesmo. Quer dizer que melhoraram os meios de socorro, diminuindo o número de vítimas mortais?
Quer dizer que as actuais viaturas são mais seguras, protegendo melhor o condutor e ocupantes? Quer dizer que os nossos condutores são mais respeitadores da norma e quando colidem não existe tanta violência? Quer dizem que a autoridade policial é mais eficaz? Que as estradas são melhores com a anulação de antigos pontos negros? Que a persistência dos avisos, campanhas, conselhos deu resultado?
Não se sabe. Possivelmente é tudo isto junto. Porém, se quisermos pensar cinicamente sobre o assunto, poderemos considerar que este ano foge à estatística como excepção e que, para o ano que vem, tudo voltará a ser como antes.
Aceitemos que esta última explicação não é boa e que estamos perante um grande avanço no combate à guerra civil que alastra pelas estradas do País. Apenas quererá dizer que estas notícias não são suficientes e deverão tão-somente ser um estímulo para as duras lutas que se avizinham.
Ao longo do séc. XX as estradas europeias fizeram mais de vinte e cinco milhões de mortos. Uma verdadeira carnificina para a qual Portugal contribuiu generosamente.
E se é verdade que a sinistralidade tem muitas causas, não duvido que, no conjunto, reproduzem práticas e atitudes que dizem muito sobre a nossa cultura cívica, o exercício dos nossos direitos de cidadania e sobre a nossa relação com os outros. Não é por acaso que a sinistralidade rodoviária acompanha de perto o desenvolvimento social e cultural de cada país.
Por tudo isto, julgo que a redução da morte na estrada não é vitória de um governo, de uma polícia, de uma instituição. Mas uma vitória de todos. De pais, de professores, dos vários agentes culturais e formadores. E também do Governo e das Polícias.
Talvez nunca houvesse uma guerra onde fosse tão necessária a participação de todos. E deve ser a única que não tem oposição interna. A não ser nós próprios, enquanto condutores. A começar logo na atitude perante as histórias trágicas que se contam. É sempre a irresponsabilidade dos outros, a inconsciência dos outros, a bebedeira dos outros. Se conseguirmos dar um passo em frente e percebermos de forma definitiva que não são os outros, mas somos nós, a coisa muda de figura.
Ganharemos a consciência que neste esforço não existem inocentes e não entregaremos aos outros a nossa própria responsabilidade na prevenção e controlo dos nossos quotidianos para que a estrada não seja o primeiro passo para a brutalidade e o sofrimento.
Na luta contra a sinistralidade rodoviária não há inocentes. Vamos ser todos, mas todos, a responder moral e civicamente se para o próximo ano o número de mortos voltar a ultrapassar o milhar.
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