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Correio da Manhã

Opinião
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15 de Outubro de 2006 às 17:00
Um desperdício de Prémio Nobel da Paz, o que foi dado a Mohammed Yunus. Paz, hoje em dia, arrasta uma suspeita de folclore, música de violino e dança em pontas sobre a miséria dos outros. É coisa mais para o Bono. Ora, Mohammad Yunus merece mais. Ele é uma mão estendida a sério. Não daquelas que deixam cair o óbolo ou a palavra vã – ou, o que é ainda menos, um programa demagógico – mas uma mão daquelas que ajudam a erguer. Mohammed Yunus devia ser Prémio Nobel de algo real, de um facto, de um dia-a-dia. Sim, Prémio Nobel da Economia, eis o que lhe seria bem entregue.
Filho de remediados num país de pobres, diplomou-se em Economia em Dacca, então Paquistão Oriental, e estudou na Universidade americana de Vanderbilt.
Poderia ter ficado a dar aulas nos Estados Unidos mas preferiu voltar para Dacca, em 1974, quando o seu país se tornou independente – passando a chamar-se Bangladesh –, saído de uma guerra civil terrível. Yunus tinha 34 anos, era muito letrado mas sabia pouco da vida. Descobriu a miséria, que era o facto determinante do seu país.
Descobriu que a miséria agia como um sifão de lavatório. Os camponeses pobres precisavam de dinheiro, os bancos emprestavam a taxas de usura que para serem pagas precisavam de mais empréstimos. A espiral puxava os pobres para o desespero inelutável como a água suja se deixa arrastar no lavatório.
Mohammed Yunus era um liberal que acreditava no capital e acreditava no trabalho. Tinha estudado isso mas o que via no seu país era um beco sem saída.
Um dia, emprestou 27 dólares a 42 mulheres de uma pequena aldeia. Não uma esmola. Era um incentivo ao trabalho. Eram 1134 dólares emprestados a uns juros muito baixos, com a condição de não serem para consumo, mas para manufacturas de tecelagem. As mulheres deveriam responsabilizar-se todas por cada uma e uma por todas. Deu certo. Foi o primeiro microempréstimo do Grameen Bank – de ‘grameen’, aldeia, em bengali. Os bancos de microcréditos que beberam na ideia de Mohammed Yunus já emprestaram, 30 anos depois, cinco mil milhões de dólares por todo o Mundo. Uma soma enorme que tem, pelo menos, um significado: para atingir esse montante é porque os empréstimos têm sido honrados por muitos dos seus beneficiados. Hoje, no Terceiro Mundo, a média dos microempréstimos é de 200 dólares (cerca de 180 euros). Servem, nos meios rurais, para a compra de cabeças de gado e, nas cidades, para uma máquina de coser ou para uma bicicleta que faz também de restaurante ambulante. A ideia do microcrédito é uma solução para um mundo em que metade da população, mais de três mil milhões de pessoas, vive abaixo do patamar da pobreza (com dois dólares por dia). Não é ‘a’ solução, mas um degrau. É um contributo que foge dos caminhos da caridade, aposta no trabalho das pessoas.
O papel pragmático de Mohammed Yunus, fornecendo pequeno capital, foi lembrar aos mais pobres dos homens que eles têm um bem extraordinário: o trabalho. Só pela dignificação desse valor tão desprezado (e tão combatido pelos profissionais das ruptura sociais) ele merecia todos os prémios. Não sei se Mohammed Yunus acredita no Homem. Sei, isso sim, que ele acredita nos homens e nas mulheres.
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