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Correio da Manhã

Opinião
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22 de Janeiro de 2008 às 00:00
D.Carlos I (1863-1908) foi o primeiro rei de Portugal (...) a morrer de morte violenta depois de D. Sebastião, em 1578. Foi também um dos mais inteligentes e capazes reis do seu tempo, quando a Europa era ainda, com excepção da França e da Suíça, um conjunto de monarquias. Ao ser aclamado rei, a 19 de Outubro de 1889, D. Carlos tinha 26 anos.
Morreu antes de festejar os 45 anos, a 1 de Fevereiro de 1908. Manteve-se com ele a fatalidade dos reis constitucionais portugueses ascenderem ao trono muito jovens e morrerem relativamente cedo. (...) Tal como já acontecera a seu pai nos últimos anos, teve de viver com um movimento político entre os seus súbditos que se propunha abertamente destruir a monarquia. No entanto, nos últimos dias, julgou que estava no caminho certo para assegurar a continuidade do regime.
(...) Os reis de hoje são, por vezes apenas, pouco mais do que celebridades, figuras que geram mais noticiário para as colunas de sociedade e revistas cor-de-rosa do que para as páginas de análise política. D. Carlos não foi um rei desses. As suas prerrogativas constitucionais fazem lembrar o Presidente da República no actual regime constitucional português, só que um presidente hereditário num Estado ainda sem sufrágio universal e onde as eleições não eram a principal origem do mandato dos governos. D. Carlos escolheu governos. Não governou directamente, mas concedeu aos políticos meios para governar. (...)
(…) Em Novembro de 1905, João Franco referiu--se ao rei D. Carlos como o “homem público mais discutido do seu País”. Com efeito, no princípio do século XX, em Portugal, o rei parecia estar no centro de tudo quanto era debate e querela política. Para uns, era o obstáculo no caminho de todas as soluções. Para outros, poderia ser a solução para todos os problemas. Basta desfolhar qualquer revista de caricaturas da época para constatar a fúria com que D. Carlos foi desenhado, até à estilização da sua figura numa forma redonda, com bigode e charuto. É o que explica, de resto, o atentado de 1 de Fevereiro de 1908. Chefes de Estado irrelevantes não são vítimas de conspirações politicamente motivadas.
( Rui Ramos é o investigador principal do quadro do Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa e há muito que estuda a história do fim da Monarquia Constitucional e da I República. É autor de ‘A Segunda Fundação’ (1890-1926), volume VI da História de Portugal dirigida por José Mattoso. Publicou em 2006 a biografia D. Carlos, na série ‘Reis de Portugal’ do Círculo de Leitores, agora reeditada em edição de livraria pela Temas e Debates. )
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