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Correio da Manhã

Opinião
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26 de Janeiro de 2010 às 00:30

Supondo que o tempo, por si só, se encarregaria de produzir um milagre de dimensões incalculáveis, a direcção do PSD decidiu fechar os olhos à situação interna do partido para se dedicar em exclusivo à magna questão do Orçamento do Estado. Os resultados estão à vista. Terminadas as "negociações" com o Governo, durante as quais o PSD se distinguiu pela inconsequência das suas posições, é impossível ter uma ideia, por mais vaga que seja, sobre o conteúdo destas negociações.

Sabe-se que a dra. Ferreira Leite viu finalmente uns "sinais" positivos por parte do Governo e que, fiada nesses misteriosos "sinais", se prepara para viabilizar o documento através da abstenção do seu grupo parlamentar. Mas ignora-se, por completo, a natureza desses "sinais" que levaram o PSD a dar o benefício da dúvida a uma política económica que o mesmo PSD, ainda há duas semanas, considerava que estava a levar o País à ruína. Ao contrário do CDS, que conseguiu marcar a agenda das negociações, o PSD acabou por se revelar um parceiro secundário e titubeante, dividido entre uma hipotética ala dura, adepta do confronto e da ruptura, e um grupinho mais conciliador que acabou por fazer vingar as suas patrióticas opiniões depois da intervenção do Presidente da República.

Enquanto a direcção se entretinha com estas subtilezas de fundo, o partido conseguia superar as piores expectativas, afundando--se numa teia de candidatos a líderes que primam pela insignificância e se distinguem essencialmente porque um – Passos Coelho – já avançou e os outros – Aguiar-Branco e Paulo Rangel – não sabem se querem avançar. No PSD, o debate ideológico, que alguns querem transportar para um Congresso Extraordinário, reduz-se singelamente a esta pequena contabilidade que regista sorumbaticamente os pequenos passos destas pequenas figuras.

Aliás, qualquer ideia, por mais básica que seja, afoga--se de imediato no mar de ódios e de intrigas em que o partido se tem vindo a transformar. Independentemente das proclamações neste sentido dos seus promotores, o Congresso Extraordinário não serve propriamente para "produzir" ideias – que não existem – mas para proporcionar um palco aos presumíveis candidatos que por lá se passeiem num espectáculo que não parece particularmente auspicioso. Com Congresso antes das directas ou directas antes do Congresso, como defende entusiasticamente o aparelho do partido, este é o estado a que o PSD chegou: dividido em grupos, grupinhos e grupelhos, o partido não é mais do que um saco de gatos onde já ninguém se procura entender.

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