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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Janeiro de 2011 às 00:30

 A senhora que me atendeu fazia humor com a palavra "crise", enquanto me explicava que os embrulhos e os sacos de plástico de maior dimensão já tinham esgotado.

É certo que estávamos no arranque dos saldos, mas não me lembro de alguma vez ter visto algo assim nesta época do ano. Era um ambiente de fim de festa, com toda a gente a esvaziar a carteira como se o apocalipse tivesse hora e data marcada para desabar sobre nós. Dias depois, os jornais informavam que as vendas de automóveis tinham crescido 62% em Dezembro, quando comparado com 2009, e que se tinha gasto mais 10% em prendas. Fosse por causa dos 2% acrescidos do IVA, do Imposto Automóvel ou do fim do incentivo ao abate de veículos, os portugueses resolveram abrir os bolsos, e gastar, gastar, gastar, em carros, em roupa, em iPads, iPods, iPhones.

Não há grande razoabilidade nesta atitude, diria qualquer economista encartado. Só que os argumentos racionais não costumam impressionar muito os desesperados. Ao contrário da senhora que me atendeu no El Corte Inglés, não me parece que as pessoas desconheçam ainda o significado da palavra "crise". Acredito, isso sim, que já a interiorizaram tanto, já estão tão convencidas da sua inevitabilidade, que decidiram celebrar o fim da época das vacas gordas com uma última rodada. Quem sabe em honra de Teixeira dos Santos. Portugal inteiro é como um condenado que, antes de subir para o cadafalso, decide abrir a garrafa de Moët & Chandon - e brindar a 2011.

SINAIS DE TRÃNSITO

TRÂNSITO NOS DOIS SENTIDOS: MANUEL ALEGRE, CANDIDATO A PR

A clareza de explicações que exige a Cavaco também se aplica a si no caso do texto de publicidade ao BPP. E o que se ouviu até agora é coxo, coxo, coxo.

BERMAS BAIXAS: ANTÓNIO PINTO BARBOSA, VIGIA DAS CONTAS PÚBLICAS

Num país decente, quem presidisse 10 anos ao conselho fiscal do BPP teria a carreira arruinada. Já o PSD acha Barbosa um óptimo vigia das contas públicas.

VISIBILIDADE INSUFICIENTE: CAVACO SILVA, PRESIDENTE DA REPÚBLICA

O caso BPN nunca foi bem explicado por Cavaco, e continua sem ser. E o problema é este: tantos gritinhos de indignação só adensam as suspeitas.

ENTREVISTAS IMAGINÁRIAS

"DIRIGENTE DERROTADO NÃO FALA MAS AJUDAS NAS LIMPEZAS": DUARTE CORDEIRO, Director de campanha de Manuel Alegre

- Quando lhe perguntaram quem é que falaria primeiro nos comícios de Manuel Alegre, se os dirigentes do Bloco se os do PS, o senhor respondeu: "No limite, é moeda ao ar." Explique--me lá isso.

- Eu sei que já anda para aí muita gente a brincar com as minhas declarações, mas eu limitei-me a utilizar uma analogia futebolística: depois de se terem esgotado os métodos de desempate, recorre--se à moeda ao ar. Só isso.

- E quais são então os outros métodos de desempate?

- Coloca-se um dirigente do Bloco de um lado e um dirigente do PS do outro e introduz-se um tema. Por exemplo, as parcerias público--privadas. Depois, dá-se início à discussão. O Manuel Alegre serve de árbitro e, ao fim de cinco minutos de conversa (ele aborrece-se muito com tudo o que não seja caça ou poesia), anuncia o vencedor.

- E depois?

- Alegre fica-lhe com os argumentos e em troca dá-lhe o direito a discursar no comício. O dirigente derrotado (em geral, o do PS) não fala, mas no fim ajuda nas limpezas.

AMOR À PRIMEIRA VISTA

ANIMEMO-NOS COM MÚSICA NO CORAÇÃO

Eu ainda pertenço à geração que passava o Natal a assistir à 38º reposição de ‘Música no Coração' na TV, e se me colocarem diante de um karaoke sou bem capaz de aviar toda a banda sonora, de ‘Sound of Music' a ‘Edelweiss', passando por ‘Do Re Mi'. Agora saiu uma edição em alta definição do filme que é absolutamente gloriosa. Em tempos de crise, bem precisamos do optimismo de Maria.

15 SEGUNDOS DE FAMA

A ESPANTOSA ERRATA DE PINTO MONTEIRO

Há notícias que têm apenas 15 segundos de fama e que mereciam muito mais. Por exemplo, a inacreditável decisão de fazer publicar no Diário da República uma rectificação onde se diz que todos os despachos assinados pelo vice-procurador-geral da República, Mário Gomes Dias, foram, afinal, assinados pelo próprio Pinto Monteiro. Esta notável "errata" foi feita para impedir que as decisões de Gomes Dias tomadas quando já devia estar jubilado (por exemplo, sobre o Freeport) viessem no futuro a ser consideradas ilegais. Quando é a própria justiça a aplicar golpes baixos como este, quem é que afinal vela por nós?

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