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Correio da Manhã

Opinião
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7 de Janeiro de 2005 às 17:00
A campanha eleitoral promete. Os artistas convidados foram esta semana Cavaco e Pôncio Monteiro. Duas pseudo-estrelas (cada um na sua arte), dois exemplos e dois desastres.
Cavaco foi grandioso na sua auto-exclusão, surpreendente na exibição do seu instinto de matador e implacável na definição do momento do golpe de misericórdia. Não quer nada com Santana nem com os santanistas. Descolou e não lhes permitirá quaisquer veleidades. Recusou a manipulação e exploração da sua imagem e recusou Santana. Mas não só. Excelente resposta para todos que não se cansaram de o incensar durante anos a fio (como Santana...) e nunca entenderam que ele se estava perfeitamente nas tintas para o PSD e seu destino... Aí está o verdadeiro Cavaco, o economista que um dia se deixou tentar pela política, mas cedo percebeu que saltara para um ninho de víboras e se desencantou. Mas só agora se decidiu a revelar a aprendizagem que retirou de uma leitura rápida de Maquiavel.
Provavelmente de uma mesma assentada matou Santana, atirou o PSD para o esgoto e imolou-se a si próprio.
A tragédia só teve um senão. A justificação do seu acto com o facto de não querer ver prejudicada a sua carreira académica. Este toque de senilidade de um pré-reformado de tudo, transformou a tragédia numa tragicomédia.
O episódio de Pôncio é diferente. Ilustra os perigos da pesca que os políticos fazem no mundo dos futebóis quando querem votos, da ilusão do direito de crítica e da independência intrapartidária. E da lógica de exclusão pela qual os dirigentes partidários se sentem cada vez mais atraídos. Os nossos partidos políticos nunca foram agregadores. Não reúnem nem congregam diferenças, mas antes tendem a eliminar quem se diferencie. Por isso temos um vasto leque deles. Por isso temos expulsões. Por isso (e não só ) assistimos a descaradas trocas de camisola e à criação de novos partidos. Esta foi sempre a sua verdadeira natureza. Tudo quanto, durante décadas, se disse sobre o suposto direito à diferença é uma fantástica mentira. Não admitem traições (e bem!) mas também não admitem diferenças. É assim e acabou-se. Pelo que todos os Cavacos e Pôncios, sejam quais forem as suas verdadeiras motivações, serão bem-vindos. Episodicamente, bem entendido...
Estes partidos (estes!) tiveram o seu tempo. Mas a partir do momento em que passaram a feudos de duvidosos interesses e objectivos começaram a estar a mais.
O que é melhor para os dirigentes partidários e seus satélites não é o que é melhor para o país, para todos nós. O que eles são, e querem, não tem nada a ver connosco.
Neste particular, com a bênção do PR (o único português que não sabe que o sistema está podre e não há coligação que o livre de recaídas e o salve) tudo vai continuar rigorosamente na mesma.
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