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Correio da Manhã

Opinião
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13 de Julho de 2004 às 00:00
Para revolta de alguns socialistas (e alegria de outros tantos), o próximo Governo foi literalmente arrancado a Ferro. O raciocínio, de tão linear, comove: houvesse eleições antecipadas e o PS repetiria a vitória das “europeias”, atingindo a maioria absoluta ou uma coisa parecida, resolúvel mediante acordo com o Bloco. Sem tempo para congressos, a inércia partidária elevaria o dr. Ferro a primeiro-ministro, cargo que ele desempenharia durante quatro, oito ou dezasseis anos, transformando o Estado num monumento à preocupação social e à bancarrota. Certos portugueses teriam ficado felizes. Sobretudo os que na noite de sexta vertiam ódio – o ódio que apenas a “traição” de um camarada suscita. Quer a demissão do dr. Ferro, quer a maioria dos desabafos subsidiários revelavam que a decisão de Sampaio foi levada à conta de decepção pessoal. Toda a gente percebia que a legalidade e a legitimidade protegiam o PR, fosse qual fosse a sua opção. A direcção do PS confiava nos privilégios da intimidade.
Apesar de tudo, é credível a amizade entre políticos. Mas é curioso que, na primeira ocasião, essa amizade sirva para uso institucional. Insisto: nenhum dos irados socialistas soube apresentar razões que contrariassem os critérios de Sampaio, cuja natural subjectividade, aliás, jamais se prestou a uma discussão razoável (em ambos os lados). Palavras como “desilusão” e “arrependimento”, os sentimentos agora em voga, não integram o léxico do debate técnico. O “argumento” da parte destroçada do PS resumia-se à facilidade de décadas em tomar uma bica com o Sampaio, pá. E um argumento desses, pá, merece escasso crédito.
De uma forma ou de outra, com sais, Sócrates ou Vitorino, a prazo o PS voltará a si. Sampaio arrisca-se a dezoito meses de relativa solidão. Abalado por “cedências” à “reacção”, o seu séquito dispersou-se no passado dia 9. E, do lado da “reacção”, o PR não espera por reconhecimento ou fingido afecto. As exigências que “impôs” ao dr. Santana serão o melhor pretexto para um conflito obstinado, essencial a um Governo sem rumo que não o das urnas.
Quer fôssemos ou não a favor da dissolução do Parlamento (eu era), convém não seguir as gralhas do costume e admitir que Sampaio, por uma vez, assumiu aquele risco escusado a que, com abertura de espírito, se pode chamar coragem. Pelo menos mais coragem que a necessária para, diante das televisões, enxotar um polícia que seguia a comitiva presidencial. Chegou a suceder.
albertog@netcabo.pt
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