Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
5
23 de Fevereiro de 2005 às 17:00
A maior maioria de sempre do PS dá aos socialistas a enorme responsabilidade de poder mudar Portugal.
Não chega, contudo, a vontade de mudar. Primeiro, é necessário perceber o sentido da mudança.
A agenda, a composição e a dimensão do próximo Governo ajudarão a esclarecer o que a campanha eleitoral não permitiu saber. Aquilo que José Sócrates não quis ou não pôde clarificar em campanha, terá agora que explicar.
Antes do programa de Governo ir ao parlamento, será dado o primeiro sinal: Quem serão os ministros escolhidos pelo primeiro-ministro recém-eleito? Mais independentes ou mais aparelho? Mais experiência política, governativa e empresarial ou absurdas “apostas geracionais”? Maior número de membros do Governo ou uma equipa governativa ajustada às possibilidades do país?
A maioria absoluta permite ao novo primeiro-ministro elevar-se acima das tendências internas do PS: ceder-lhes será uma opção e não uma necessidade.
A maioria absoluta dá ao novo primeiro-ministro independência no parlamento. Ceder à agenda radical do Bloco de Esquerda seria, por isso, uma opção e não uma inevitabilidade.
Sem desculpas internas ou álibis externos, sobra a José Sócrates a responsabilidade (e a oportunidade) de introduzir reformas em Portugal, pensando mais no país e menos nos partidos e nos calendários eleitorais que aí vêm.
Desde Cavaco Silva que não havia um primeiro-ministro a quem fosse aberta semelhante oportunidade. Mesmo Durão Barroso teve que governar em aliança, apesar de não ter sido por aí que a coligação quebrou. O CDS, contra muitas previsões, acabou por ser um parceiro estável na coligação e na noite eleitoral, Paulo Portas saiu dignamente pelo seu pé, quando nem a tal estaria obrigado.
No PSD adivinham-se dias difíceis. Mas Santana Lopes parece estar a facilitar a vida ao partido, aceitando uma transição de poder, em vez de se entregar a um ajuste de contas de que ninguém sairia bem. A demissão do líder do PSD pesará no futuro próximo, designadamente na forma como se disputarão as eleições presidenciais. Depois de tudo o que se tem passado não se vê, por exemplo, como poderia Cavaco Silva articular uma candidatura presidencial com a actual liderança social-democrata.
Quanto aos partidos à esquerda do PS, só condicionarão o Governo Sócrates, na exacta medida em que este o permita. Mas, para o Partido Comunista e para o Bloco de Esquerda, a boa notícia é que sendo dispensáveis na governação podem entregar-se a uma atitude de oposição que rende sempre em tempos de crise: o protesto permanente e militante dos que não têm a responsabilidade de governar.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)