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Correio da Manhã

Opinião
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30 de Julho de 2003 às 00:54
Agora, que já esfriaram os ânimos e se dissipou muito do protesto e da indignação causados pela monopolização dos noticiários televisivos, na noite de 11 de Junho, por uma foragida à Justiça, penso ser altura de eu próprio dizer algo sobre o assunto, pois ficaria de mal comigo mesmo se o não fizesse.
Para simplificar as coisas, limitar-me-ei a socorrer-me de dois pontos de vista, de certo modo contrários, que na altura me impressionaram (entre muitos, e não menos esclarecedores, que vieram a lume na Imprensa), da autoria de pessoas que não conheço, mas que merecem a minha admiração. A propósito dessa tristemente célebre "conferência de Imprensa", Vasco Graça Moura destacou a gravidade da transmissão pela televisão pública, que em casos de intervenções importantes para o País (como, por exemplo, do Presidente da República, primeiro-ministro e líderes partidários) lhes concede apenas um escasso tempo de antena, enquanto à ex-presidente da Câmara de Felgueiras foram dedicados pela RTP uns longos e penosos 40 minutos em directo – cerca de 60 por cento do tempo dedicado ao Telejornal. Por sua vez, o director de Informação da televisão pública, numa compreensível defesa " da sua dama", argumentou, e bem, qualquer coisa como não existir um estatuto para o jornalismo público e outro para o privado, havendo apenas bom e mau jornalismo. Por outras palavras, aquilo que tem interesse jornalístico deverá merecer destaque, seja qual for o regime do canal televisivo, em detrimento, portanto, daquilo que o não tem.
Em princípio, qualquer destas posições pode merecer o meu apoio, apesar de parecerem antagónicas. Na realidade, o que as separa é apenas o conceito, aliás muito fluido, daquilo que tem ou não tem interesse jornalístico (pois neste aspecto, felizmente, não existe unanimismo), além da existência ou não de uma relação causal entre interesse e destaque.
A questão principal, por conseguinte, assenta na concepção que se tem de um jornal televisivo cujo padrão o estatuto editorial da estação deve determinar. É evidente que esse estatuto implicará uma opção quanto às prioridades da notícia: a do interesse nacional e a do interesse internacional, e se as grandes questões sociais, educacionais e de saúde têm ou não preferência sobre a baixa política, os pequenos crimes, os ‘fait-divers’, os escândalos provincianos e por aí adiante. Neste contexto, a televisão pública terá, provável, mesmo necessariamente, de evitar os temas menores e se concentrar naqueles que configuram a sua obrigação de prestar um serviço ao País. É tudo, afinal, uma questão de bom senso,
O Telejornal, por um lado, deve prosseguir sem desvios a sua opção entre quantidade e qualidade, que parecia já ter sido tomada; e, por outro, acompanhar os mais evoluídos padrões europeus, que preferem um noticiário de, no máximo, 30 minutos, o que obrigará a um alinhamento rigoroso e ponderado, em que a cada peça, por exemplo numa média de 20, seria atribuído 1 minuto e 30 segundos – o que é bastante, em termos televisivos. Curiosamente, tanto aquele director da RTP (que, ao que julgo, tem uma formação com raízes na circunspecta BBC), como o poeta e eurodeputado familiarizado, ‘et pour cause’, com a cultura, incluindo a televisiva, dos mais avançados países da União, sabem perfeitamente, o primeiro, que o provincianismo da transmissão integral de uma extensa e patética conferência de Imprensa como a que está em causa seria totalmente inaceitável em qualquer televisão de um país civilizado; e, o segundo, que uma intervenção não adquire automaticamente interesse jornalístico só pelo facto de ser feita por alguém com responsabilidades na Chefia do Estado, no Executivo ou no panorama político-partidário. Às vezes, muito pelo contrário.
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