Barra Cofina

Correio da Manhã

Opinião
1
27 de Setembro de 2005 às 17:00
Para o dr. Ribeiro e Castro, que uns cinco por cento dos portugueses talvez reconheçam como o líder do CDS, a discussão antecipada da corrida presidencial é sinal de “desrespeito” pelas eleições autárquicas. O dr. Ribeiro e Castro exagera: as eleições autárquicas conseguem muito bem desrespeitar-se sozinhas. O bronzeado regresso da dona Felgueiras será apenas o lado mais visível da festiva pocilga a que o nosso municipalismo desceu. Mas a inusitada quantidade de debates promovidos por televisões e rádios de alcance nacional exibe com zelo aquilo de que falamos quando falamos de ‘poder local’.
Com muito boa vontade, os candidatos às duas principais câmaras ainda disfarçam. Tirando as ocasionais figuras folclóricas (o prof. dr. Carrilho, o moço do BE no Porto), as criaturas que disputam Lisboa e Porto sempre conseguem fingir um esboço de seriedade e empenho que, sem entusiasmar, não embaraça por aí além. Já o resto, de tão atroz, vicia.
Eu viciei-me nos debates autárquicos da Sic Notícias e da TSF. Eu, confesso, sou um pervertido, que goza ante o espectáculo da miséria humana. Eu rio-me das fatiotas, sugeridas por ‘assessores’ que no expediente são seguranças de boîte. Eu rio-me das atitudes, que pretendem emular estadistas e resultam na absoluta emulação do patético. Eu rio-me das frases, maravilhosamente ocas e decoradas a custo para desarmar o adversário (“Ó sr. dr., não fique nervoso!”). Eu rio-me de um país que chegou a isto e que se calhar nunca disto terá saído. E depois rio-me de mim, por contemplar semelhante miséria sem um pingo de vergonha ou de esperança.
Trata-se, porém, do abismo autárquico, cuja essência é irreformável. O problema é que as próprias ‘presidenciais’ não prometem melhor. Dos caciques de província à ‘alta política’ vai um saltinho, que aliás as reacções à divertida candidatura de Manuel Alegre exemplificam. Jerónimo garante ir até ao fim, o que no PCP basta para constituir uma epopeia. O dr. Louçã acha que Alegre não possui a “raiva” (sic) necessária para combater a direita – se não tivesse Louçã, o Bloco com certeza recolheria o seu candidato num canil. E o dr. Soares, coitado, permanece no risonho mundo de 1986, entre a audácia de Zenha, as reviravoltas nas sondagens e uma esquerda fragmentada prestes a beatificá-lo.
Sobra evidentemente Cavaco, o dos silêncios, das estratégias e das ‘gestões’. E face à concorrência, Cavaco parece ser o mal menor na desesperada corrida a um cargo que ninguém sabe para que serve e ninguém concorda sobre para que deveria servir. Ao menos, a utilidade de um presidente de câmara não levanta quaisquer dúvidas. Perguntem em Felgueiras. Perguntem onde quiserem.
Ver comentários