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Correio da Manhã

Opinião
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5 de Fevereiro de 2003 às 01:13
Será um tanto remar contra a maré, mas a verdade tem de ser dita. O Governo está a causar certo desapontamento a alguns portugueses, não talvez à maioria, mas pelo menos a uma minoria, ainda que escassa, na qual me incluo, ao parecer ceder a pressões várias e recuar de forma pusilânime nos seus propósitos de rever o panorama dos feriados nacionais – religiosos ou civis – e de evitar as "pontes".

Sei que é politicamente incorrecto falar no assunto, que muitos consideram uma questão menor, senão mesmo bizantina. As vozes que tenho ouvido não só favorecem o ‘status quo’ como ainda se queixam. No ano passado, por exemplo, protestavam pelo facto de os feriados de 1 e 8 de Dezembro terem coincidido com domingos, ou seja, com outros dias feriados. Quer isto dizer que os trabalhadores se sentiram defraudados pelo calendário, que Ihes teria retirado o gozo de dois dias.

Aristóteles dizia que o objectivo do trabalho era conquistar o direito ao lazer. E os romanos, de quem herdámos a prática do ‘dies feriatus’, consagravam essas jornadas ao repouso e à homenagem às divindades. Em Portugal, habituámo-nos a uma série de feriados religiosos e civis como um direito tão inalienável que dificilmente alguém pensaria em apagar do calendário um só que fosse. Mas, pelo menos, poderíamos evitar certas consequências deletérias da dança dos feriados se uma pequena parte fosse remetida para a segunda-feira, à semelhança do que sucede, pelo menos, nos Estados Unidos. Afinal, o feriado em si estaria preservado, a única alteração seria a data móvel, como sucede, aliás, no calendário religioso.

Os americanos não se coíbem a este respeito. Mesmo o Dia do Trabalhador, que na generalidade dos países é comemorado a 1 de Maio, é nos Estados Unidos considerado feriado na 1.ª segunda-feira de Setembro, e nessa prática são seguidos, que eu saiba, pelo Canadá, que respeita a mesma data, e pela Nova Zelândia, embora esta prefira a 4.ª segunda-feira de Outubro. Já na Austrália a comemoração do Labour Day é feita em datas diferentes, consoante a região. De resto, os EUA aplicam o mesmo princípio ao Dia de Colombo (a 2.ª segunda-feira de Outubro), ao Dia de Acção de Graças (a 4.ª segunda-feira de Novembro) e ao Dia das Eleições (a terça--feira que se segue à 1.ª segunda-feira de Novembro). Feriados com data fixa, só o Dia da Independência, O Dia dos Veteranos de Guerra e o Dia de Natal.

Toda a nossa cultura, porém, é mais vocacionada para o lazer que para o trabalho, em particular o trabalho remunerado e por conta de outrem. Charles Lamb, um versátil poeta e escritor britânico do século XIX, formulou um dia a pergunta que muitos de nós ainda fazemos: "Quem terá inventado o trabalho e derrubado o espírito livre e festivo dos dias feriados?" A verdade, porém, é que esse espírito não morreu e, com o recurso às "pontes", tende mesmo a fortalecer-se.

Vivemos o nosso calendário mês após mês, e somos particularmente sensíveis à hípótese de cada uma dessas "pontes", que nos permitirá gozar, egoisticamente, mais um dia de ócio. Mas, àqueles que lamentaram o facto de, em Dezembro passado, terem "perdido" dois feriados, quero dar a boa notícia de que os vão recuperar este ano. Considerem portanto com optimismo o próximo mês de Dezembro, em que terão, contando com sábados, domingos e feriados, 11 dias de descanso, que serão 12 para aqueles que tiverem dispensa na véspera de Natal, e 13 se fizerem a "ponte" de sexta-feira, 26. Que o Governo não tenha tido ainda a coragem da opção pelas segundas-feiras é lamentável. Pior será se a anunciou como uma medida indispensável e agora a abandona como uma questão menor. A não ser que o Código do Trabalho, a vigorar a partir de Janeiro de 2004, mantenha apenas inamovíveis, como Bagão Félix promete, Natal, Páscoa e Ano Novo.
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