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Correio da Manhã

Opinião
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22 de Outubro de 2006 às 17:00
Há revoluções que não entendo que não se façam. Como é possível suportar, todos nós e há tanto tempo, um erro público? Reparem, os aristocratas franceses, durante séculos, defenderam os camponeses e os aldeões, e por causa desse contributo social eram respeitados e tinham privilégios. Um dia, a França tendo-se feito e o país começando a ficar centralizado, o Estado, o seu Exército e as suas Polícias é que passaram a defender os cidadãos.
Apesar de já sem préstimo, os nobres continuaram a gozar dos seus privilégios. Para sempre? Lá está, não. Um dia, o povo saiu à rua e guilhotinou os abusadores aristocratas. Nada que está errado sobrevive sempre. Excepto os carrinhos de bebés. É aqui que eu quero chegar: para quando uma revolução contra os carrinhos de bebé?
Uma revolução tanto mais necessária quanto é possível. A prova é que o carrinho de bebé já esteve certo e hoje está errado. O que se pede é que se vire o sentido do carrinho. Hoje, deposita-se uma inocente e frágil criatura para defrontar o mundo, olhando em frente, sem contacto nenhum com os seus (mãe? pai? empregada doméstica?, não interessa, aquela cara que o bebé conhece, o conforta e tranquiliza, desaparece, de repente. Está algures lá para trás, mas como é que o bebé o vai saber?). Ah, o leitor ou leitora, apesar de pai ou mãe, avô ou avó, não tinha ainda reparado na violência que são, hoje, os carrinhos de bebé, com os seus ocupantes empurrados sem poderem ver quem os empurra? É extraordinário como cometemos faltas sem nos dar conta do mal que fazemos.
Os carrinhos de bebé de antigamente eram coerentes. Eles eram feitos para o conforto do conduzido. Para este passear-se que nem um nababo, refastelado.
E se eram feitos em função do utilizador (por isso se chamavam “carrinhos de bebés” e não “carrinhos contra bebés”), o essencial era-lhes oferecido. O que é importante para uma tenra criatura? Ainda mais do que a segurança, sentir-se em segurança. Ainda há pouco, os bebés estavam na barriga da mãe, quentinhos e embalados, agora, cá fora, precisam de ter a certeza que zelam por eles a todo o momento. Um empurrador de carrinho de bebé é como a mulher de César: mais do que estar ali é importante que “pareça” estar ali. Pareça, para o bebé. Por isso, o carrinho de bebé antigo virava o empurrado para o empurrador. Andavam, olhando-se.
Hoje, qualquer mãe moderna está disposta a aguentar o filho trintão lá em casa, passar-lhe as camisas, questionar-lhe as namoradas, levar-lhe a cerveja enquanto ele vê a Sport TV. Paradoxalmente, essa mãe galinha abandona o seu pintainho, de seis meses, no carrinho de bebé. Especializei-me a olhar os carrinhos de bebé com que me cruzo.
Vejo sempre uma criatura perdida, solitária, olhando o desconhecido. Que não sou só eu, é a multidão, o asfalto, as montras das lojas, tudo tão assustador, porque tudo isso está longe daquela (ou daquele) a quem o bebé vira as costas.
Nunca vi um bebé, no carrinho de bebé, a sorrir. E já vi um a chorar silenciosamente, coisa que a mãe não sabia. Avisei-a. Ela ficou envergonhadíssima. Hoje estou aqui a avisar todos. Não querem fazer uma revolução de 180º?
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