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Correio da Manhã

Opinião
9
8 de Março de 2004 às 00:00
Lembram-se da morte do Fehér? Foi há tanto tempo que hesitei, agora, onde pôr o acento e o “h”. Volto ao infeliz futebolista porque aconteceu que uma amiga me alertou para o sadismo da minha profissão de jornalista. Disse-me ela: “Então, ele era tão amigo do Miguel e do Anderson e vocês nunca escreveram sobre essa bela amizade?”. De facto, um húngaro, um sueco e um português negro encontraram-se numa cidade antiga e deram-se bem – e ninguém contou. Mas o desespero ajoelhado de Miguel, chorando o amigo, isso não nos escapou.
Do tempo da amizade, não houve uma só reportagem escrita, apesar de três diários desportivos. Em que língua falavam? Que discos se trocavam? Quando é que Fehér quis saber: Miguel, como é isso de ser preto e ser deste país europeu? O Miguel e o Anderson perguntavam ao outro coisas sobre a beleza mítica das húngaras? Havia, no grupo, um cozinheiro de gostosuras? Havia um estoura vergas? Nunca saberei. E, no entanto, gostaria de ter sabido. Tenho de concordar com a minha amiga, nós, os jornalistas, desistimos de contar parte da vida. E não sei porquê.
Nas faculdades de jornalismo ensina-se que notícia não é um cão morder um bispo mas já o é um bispo morder um cão. Admito um dos critérios que leva a essa escolha: as notícias têm de ser acontecimento especial, e um cão morder é banal. Já não percebo porque razão o bispo tem de morder o cão para virar coluna impressa: mais depressa eu dava por bem empregado o dinheiro gasto no quiosque se lesse que um monsenhor andava 150 quilómetros para pôr um Rex aos saltos de contentamento.
Mas não. Notícia que se preze, à falta de ter o verbo morder, tem de ter matar ou assaltar ou falsificar. Substantivo é tiro, desfalque ou ácido sulfúrico. Político que aplaude não sai, fugido já entra (preso, então, é manchete). Pergunto: se o que acontece é tudo mau, não é altura de contar o invulgar, as boas notícias?
“Ontem, cerca das sete horas da manhã, foi visto a sair do seu prédio, na Rua do Ortigão, Caldas da Rainha, um indivíduo com um sorriso estampado na cara. Tratava-se de Belmiro Soares, de 35 anos, empregado bancário, casado com Judite Soares, de 29, doméstica. Segundo uma popular, ouvida pelo repórter, o sorriso não apanhou a vizinhança desprevenida: “Há muito que sabíamos que as coisas corriam bem naquela casa.” Era costume, nas primeiras horas da manhã, um forte cheiro a café invadir os apartamentos do mesmo andar do casal Soares: a referida Judite apaparicava o seu homem. Mas esse, o cheiro a café, não era o único indício do que se passava para lá daquela porta: “Quase todas as noites, há um chiar de molas de cama”, denunciou a mesma vizinha. Esta, apesar de se ter recusado a dar o nome, piscou o olho ao repórter.”
De acordo, não levaria essa notícia para a manchete do jornal. Mas, de vez quando, gostava de reportar coisas assim.
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