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Correio da Manhã

Opinião
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9 de Abril de 2011 às 00:30

Os Estados que sofrem da doença da dívida soberana não se reconhecem nos sintomas que lhes chegam dos vizinhos mais atacados: a Grécia não era típica, a Irlanda não era a Grécia, Portugal não era a Irlanda, agora é a Espanha que não é Portugal, por uns tempos. Este culto da diferença tem permitido que o mesmo médico receite as mesmas medidas sem qualquer efeito nos pacientes, e sem sequer impedir o efeito de contágio que todos negam com a cara já vermelhusca de febre do stress.

Também os bancos, no interior de cada país, sacodem a doença do capote da ratio e do rating em que estão envolvidos pelo menos há dois anos, se não mais. Em Portugal chegam ao à vontade de acusar o Estado de lhes dificultar a escrita. Na Irlanda acabaram nacionalizados nos prejuízos. Na Islândia ainda não se sabe como vai acabar, pois os cidadãos não querem contribuir. Por cá, a banca marca o ritmo da governação doméstica. Ora são contra a entrada do FMI que lhes preparou a papinha nos anos oitenta, ora se reúnem de véspera para indicar ao governo do dia o caminho da cruz quando o próprio refinanciamento pelo mercado e pelo BCE já deu o que tinha a dar. Sempre assertivos, sempre incólumes, sempre seguidos pelo pessoal menor, também não querem medir a temperatura do seu estado de saúde. Pelo contrário, assim como Portugal não era a Irlanda, a banca quer-nos fazer crer que, sem a dívida soberana, as suas dívidas à banca internacional não seriam um problema. A sua Associação de Bancos só deve saber fazer lóbi porque não auto-regulou coisa nenhuma. Defendendo sempre o mercado global, mas exigindo sempre toda a protecção dos poderes públicos, que pouco financiam através dos impostos, a república dos banqueiros trouxe-nos menos tranquilidade do que a república dos empresários. No entanto, a grande questão para o futuro não é tanto o jogo do empurra para saber quem teve culpa desta queda internacional do Estado, mas como conseguir gerir e ultrapassar esta situação lamentável para a qual fomos conduzidos nesta primeira década do século XXI. Convém acautelar as melhores condições negociais com a troika que aí vem: Comissão, BCE, FMI. A promessa de Budapeste – que ironia! – cifrada em 80 mil milhões de euros não nos deve fazer esquecer que sem uma conferência financeira internacional a epidemia bancária prosseguirá. E que tudo pode acabar mal.

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