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Correio da Manhã

Opinião
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31 de Março de 2011 às 00:30

 Fujo sempre a essa tentação, no respeito pela separação de poderes. Agora nas questões políticas de âmbito nacional e que envolvem o interesse do País, como cidadão e contribuinte activo tenho, nos termos constitucionais, não só esse direito como essa obrigação cívica. De justiça toda a gente debita de cátedra e entende e ninguém leva mal.

O meu último artigo, com o título ‘O meu País’, levantou muita urticária e erupções cutâneas. Nada a que já não esteja habituado.

Vamos, então, ao que interessa! Disse Mário Soares, um democrata de gema, que nestes dois meses antes das eleições Portugal podia enfrentar um vazio de poder. Disse Cavaco Silva, a propósito da crise política, que tinha perdido espaço político para intervir. Duas afirmações que, vindas de pessoas com um perfil político e uma história de vida diferente, não são, em democracia, exactas nem aceitáveis.

Em primeiro lugar, em democracia não há vazio de poder. Vazio de poder é uma expressão que define uma situação política em que um governo não possui uma autoridade central. O que não é o caso, ainda que como ‘governo de gestão’. A crise política está traçada a régua e a esquadro na nossa Constituição. Não há incertezas. O País está garantido, não existe uma herança vaga no poder. Apesar da crise financeira e, agora, da crise política, o regular funcionamento das instituições está assegurado.

O país não pára, a democracia vai funcionar até chegar um novo governo.

Perante este cenário, deixem o povo falar e não tenham medo da democracia. A crise financeira e a possível entrada do FMI não justificam tudo nem legitimam que se agigantem papões.

Em segundo lugar, em democracia nenhum político, e muito menos um Presidente da República, enquanto garante do Estado Democrático de Direito, sendo a última voz da serenidade, da segurança e da paz da Nação, pode dizer que perdeu espaço político para intervir. Os partidos políticos nunca podem tirar espaço de intervenção ao Presidente da República, caso este, obviamente, não esteja interessado na crise política. E se estiver interessado na crise, já não é o Presidente de que nos fala a Constituição. No interesse dos portugueses, o seu espaço de actuação e de mediação é ilimitado, desde que seja para salvar o País e assegurar uma boa e saudável coabitação entre os partidos.

Afirmar que perdeu espaço é negar os valores democráticos e passar a fazer parte do problema e não da solução.

A tragédia e o drama fazem parte de nós.

A tragédia clássica deve cumprir, segundo Aristóteles, três condições: possuir personagens de elevada condição (heróis, reis, deuses), ser contada em linguagem elevada e digna e ter um final triste.

Não vale a pena rebelarmo-nos contra as forças do destino.

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